Domingo, 15 de Maio de 2005

Um pedaço de mim.

LrgStandingNude.jpg

- Queres saber como sou. Para quê??!!! - Questiono o silêncio que me rodeia enquanto escrevo estas palavras.

Hoje levantei-me cedo, tinha perdido uma lente durante a noite, demorei anos a conseguir colocá-la de novo. A minha filha já pronta, o pai dela em silêncio, desapercebido, numa invisibilidade consciente, que não procura, apenas lhe sobressai.

Resolvo tomar um duche, dispo o pijama largo, a água aquece, o meu corpo quente anseia escaldar-se, sorrateiro e com vontade desliza para debaixo do chuveiro.

Não ouço nada, ninguém, num silêncio por onde os pensamentos se desvanecem e os sentidos apuram o seu poder.

Batem na porta, desligo a água, os pingos finais escorrem pelas minhas costas.

- Que foi? - Pergunto danada.

- Posso entrar? - Ouço.

- Diz lá o que queres, fala... – a porta mantém-se fechada.

- Já passa das nove. - Bufa aborrecido pelo atraso, frustrado por mais uma nega.

- E...? - Rosno atenta ao olhar que não me vê.

Ouço-o afastar-se, os passos quase silenciosos dizem-me que desceu para a garagem.

Respiro fundo, olho-me ao espelho, e tento perceber como me verias.

Passos de novo, leves e amados.

- Então, mãe... Vens ou não? - A sua voz entra ao mesmo tempo que a porta se abre. Um rosto, um corpo, um cheiro, uma menina que amo para além da sanidade.

- Vou já linda. Falta-me apenas lavar os dentes - sorrio para ela, que descrente me vê nua e ainda a passar creme hidratante.

Aproxima-se e toca o hematoma que tenho no braço.

- Dói? - Interroga com os seus dedinhos a passar lentamente pelo verdugo vermelho do meu braço.

- Não coração, já não. Está feio, mas não dói nada – E pressiono a mão contra a minha pele para que perceba que não me magoa nada.

Num gesto habitual passa de seguida as suas mãos pelo meu peito, parando nos mamilos negros e sempre entumecidos.

Pressiona a sua boquinha contra um deles, quase sempre o direito, e faz de conta que mama. Ela que sempre se negou ao meu amamentar.

Olhámo-nos numa cumplicidade de oito anos, acaricio o seu rosto moreno. Abraçadas somos nós e o mundo.

- Pronto, deixa-me terminar, senão vai haver amuos. Estou mesmo a acabar – Afasto-a de mim, que se deixa ficar sentada no bidé. Observa-me. Dependente dos meus gestos.

- Achas que estou mais magra? – Pergunto, a boca a deixar fugir o dentífrico.

Olha-me atenta, não me vai mentir.

- Ainda tens celulite! Tens de continuar a caminhar. - Uma afirmação fundamentada nas minhas baldas dos últimos três dias.

Levanta-se, dá-me o roll-on de secagem rápida, chega-me as cuecas, que pousa na bancada, empurrando a minha malandrice para a urgência de sairmos.

- Estamos à tua espera. – Finaliza, enquanto sai, descendo, de novo as escadas.

Ouço as suas vozes distantes, sei que está a dizer ao seu pai que estou quase pronta.

Não me apetece vestir-me, queria ficar sozinha em casa, andar nua, deitar-me na cama nua, ver televisão nua, comer nua, ler nua, rir nua, sonhar nua, amar-me nua pelo dia fora, esperar a noite ainda nua.

Olho-me no espelho, imagino que me olhas, sorrio para ti, sei como quero que me vejas, mas sei também que os teus olhos não vêem o mesmo que eu, logo, inquieta desvio o olhar dos teus olhos, e olho os meus que se reflectem no espelho por onde escorre o vapor do duche quente.

Os meus dedos inclinam-se e tocam a sua superfície, imaginando-o corpo de homem, os meus bicos espetados deixam a sua impressão no espelho, estremeço pelas picadas de prazer que sinto.

Atrás de mim sorris, aprecias a minha entrega, o meu desejo.

Não vês o meu corpo, mas sim a mulher que sou, e aí sinto que estás um passo de mim.

Visto as cuecas, o soutien, as calças e logo a t-shirt. Penteio os cabelos. Retiro a roupa suja do cesto. Olho-me e reconheço-me nos gestos de todos os dias.

Um último olhar para ver se fica tudo bem. Fecho a porta e desço as escadas.

Calço as sapatilhas, procuro pela última vez o telemóvel antes de o desligar para o resto do dia. Tenho uma mensagem tua.

“Ainda gostas de mim?”

Escondida apetece-me responder, mas não o faço. Talvez logo à noite no esconderijo do meu sofá, enquanto fingimos que dormimos.

Entro no carro, fechamos o portão e iniciamos o Domingo de todas as semanas que estão para começar.


publicado por eu34 às 19:59
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11 comentários:
De Anónimo a 20 de Maio de 2005 às 17:59
Querida Eu33
A dualidade dos afectos, o prazer da transgressão, a desarmonia doméstica, o consolo da ilusão... belo texto.
Um beijo
DanielDaniel Aladiah
(http://aladiah.blogspot.com)
(mailto:aladiah2005@hotmail.com)
De Anónimo a 18 de Maio de 2005 às 12:29
Para além de quereres saber como és, procura também saber Quem És. O teu enigma, os teus silêncios, o teu segredo, a cumplicidade dos teus gestos e dos teus anseios é uma parte Daquilo que és. A fragilidade é uma ilusão do que aparentas não ser. Porque a esperança dos sorrateiros momentos que hão-de vir dão-te a força de saberes o que queres. Não é fácil conciliar o que se tem e o que não se tem, mas o desafio da vida coloca-te na frente as oportunidades que te permitem "ver" o que tens dentro. Por fora, basta olhares-te ao espelho...
Amaral
(http://amaralnascimento.blogspot.com)
(mailto:amaralnascimento@hotmail.com)
De Anónimo a 18 de Maio de 2005 às 00:57
Visualisei o teu texto. As imagens da tua luta interior ficaram bem expressas. Obrigado pela partilha. Fica o melhor que puderes e continua a lutar por um pouco de felicidade, pelo menos.Fernando B.
(http://lusomerlin.blogspot.com)
(mailto:ftcb@netcabo.pt)
De Anónimo a 17 de Maio de 2005 às 22:32
Lembraste das perguntas que te fiz numa noite escura e triste?... Já respondeste. Um beijo.Zuco
(http://www.citizenzuko.blogs.sapo.pt)
(mailto:zuco40@yahoo.com)
De Anónimo a 17 de Maio de 2005 às 20:32
Gostei da tua narrativa e do que ela encerra.
Principalmente quando a filha beija a mãe no mamilo. Ternurento. Adorei. Beijo***
NILSON
(http://nimbypolis.blogspot.com)
(mailto:nimby33@hotmail.com)
De Anónimo a 17 de Maio de 2005 às 17:08
Olá!!
Como sempre adorei o texto. Sempre q leio o que aqui se escreve, transcrevo as palavras para uma tela...curiosamente pinto sempre um belo quadro.
BeijinhosGonçalo
(http://www.norastodasondas.blogspot.com)
(mailto:goncalo_t@hotmail.com)
De Anónimo a 16 de Maio de 2005 às 17:49
Bonito texto!! Se é verdadeiro ou não, não interessa, a escrita é de um romance...bem poderia ser o I capítulo. A minha vida tem um pouco da tua!!! Beijos, biga (blog «vozesdomar»)biga
(http://vozesdomar.blogs.sapo.pt)
(mailto:mgjcalmeida@sapo.pt)
De Anónimo a 16 de Maio de 2005 às 17:49
è preciso não voltar ao pesadelos e acreditar que o sonho continua a ser a permissa mais importante, sabes, o sonho continua lá, no sítio onde o encontraste, espera por ti, só tens de adormecer e ele entrar-te-á no espírito e conduzir-te-á deste pesadelo para fora, basta procurá-lo, é tão fácil...
alfa69
(http://daquidali.blogs.sapo.pt)
(mailto:aalmas@marbosserra.pt)
De Anónimo a 16 de Maio de 2005 às 16:56
A vida é o que fazemos dela...e podemos sempre mudá-la!!!!!inconfidente
(http://inconfidencias.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)
De Anónimo a 16 de Maio de 2005 às 13:02
Que filhinha meiga:)
Como sempre gostei muito do teu texto...consigo ver tudo, quase se torna real, mesmo aqui ao lado.
Beijos* **Vampiria
(http://www.childrenofglamour.blogs.sapo.pt)
(mailto:pppp@hotmail.com)

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