Segunda-feira, 30 de Maio de 2005

Amor (O Fim)

ceu_2.jpg

- Podemos falar? – Enquanto te sentas, conferes os meus olhos vermelhos, inchados das lágrimas caídas.

Apenas posso anuir, as palavras não saem, estão entaladas na garganta dorida. Sinto os olhares inquiridores de quem nos rodeia. Infelizmente, e uma vez mais, não estamos sós.

- Ei, não te quero assim, “Maria-chorona”, sabes que não adiantas nada em estar assim – Vais dizendo numa tentativa frustrada de me fazer sorrir.

Nem te ouço, apenas sinto a dor, a mágoa, a traição de quem amo. As lágrimas escorrem, já sem sal, apenas água. Existem apenas. Como eu. Já sem sol, sem sorrir. Descontroladas. Tento aguentar. Estou cansada de ter pena de mim. Cansada do que está para vir. Cansada do que me está a acontecer. Dos olhares piedosos dos outros que nos olham.

O M. entra no meu gabinete, olha-me na expectativa de saber o que se passa. Está aflito. Não sabe como me ajudar. Nem sabe se pode mostrar que está comigo. O meu melhor amigo tenta esconder no seu olhar as palavras “…bem te disse!”. Sei que está zangado. Não comigo. Contigo. Connosco.

Sai, e fechas a porta nas costas dele. Não te preocupas com o que os outros possam pensar, afinal está tudo perdido. No fundo sinto-me aconchegada com essa postura segura e forte que apresentas.

- Olha para mim – Pedes.

- Não posso… - As palavras arrastam-se entrecortadas. Não as sinto como minhas.

Um suspiro longo, nervoso. Acendes um cigarro, perguntas-me se quero, nem esperas a resposta e passas-mo aceso, enquanto acendes outro para ti.

Hoje não partilhamos o cigarro.

Hoje estamos separados.

- Aconteceu, descobriram que tivemos um caso… – recomeças seguro.

A palavra "tivemos..." assume um papel tão importante quanto a aflição que vivo.

A cabeça ameaça explodir num latejar constante e doloroso.

Pela primeira vez olho-te, e tento antecipar o que me queres dizer. Adivinho que me vais magoar.

Aguardo.

- …Não há nada a fazer, não confirmei nada, não assumi nada, sei que a dúvida existe, e vamos jogar com isso. – Terminas de um fôlego só.

Esperas a minha reacção.

- Achas mesmo que eles não sabem? Viriam ter contigo se não tivessem a certeza? – A minha voz sai calma, quase silenciosa.

- Eles sabem, mas não têm provas, logo não podem confirmar, e tens de te manter ligada a essa certeza. Não lhes vais dar o que querem, pois não? – Pela primeira vez noto o pânico na tua voz.

Já nem tento fingir que estamos a falar de trabalho.

Completamente parada, sinto que o fim chega.

Só não sei que fim, ou a quem está reservado.

- Amanhã é feriado, vais para casa, falas com eles, podem ficar com a tua criança, e vais de fim-de-semana com ele. Ficarão felizes, percebem que estás a fazer um esforço, e de certeza que com o tempo vão acreditar que tudo não passou de uma troca de mensagens. – Finalizas.

Foi assim que percebi que tinha entregue a minha vida nas mãos de quem não a merecia.

Em segundos vi o filme dos dois anos que acabavam nesse dia.

Nesses dois anos amei-te como nem sabia que era possível. Desejei-te como nunca havia desejado ninguém. Fizemos amor e disseste “amo-te”. Planeei uma vida em que serias também uma prioridade. Entreguei-me. Acreditei em ti. Aceitei quem eras e como eras. Nunca questionei nada da tua vida. Entreguei-me.

Era tua.

Era-te fiel, como nenhuma mulher o poderia ser. Mas eu fui, eu era-te fiel.

Sem esforço, era feliz sendo-o, nunca foi difícil.

Eu era fiel ao meu amante.

E tu sabias que eu não ficava com ele. Sabias que apenas partilhávamos a mesma casa. E quando estávamos de férias, ou mais afastados, fazias questão de mo perguntar, e respondia-te prontamente “…sabes que sim.”

Ficava feliz em ver-te feliz. Sabias que era tua. E nessa certeza que te dava sentia-me tua mulher.

E agora ouvia-te dizer-me “…vai de fim-de-semana com ele”,???? Estavas a mandar-me ir para a cama com ele. Ou seria uma autorização?

Não.

Eras apenas o chulo a mandar a sua puta foder para que ganhasse aquilo a que tinha direito.

No teu caso, a liberdade de não estares envolvido comigo.

No meu caso, apenas o que merecia. Afinal eu tinha deveres a cumprir, tinha-os simplesmente ignorado.

As lágrimas secaram, o sorriso voltou débil aos meus lábios, a voz encorpou-se.

- O que queres dizer com isso? – Perguntei sem medo da dor que chegava galopante.

Silencioso, nenhuma resposta. Não porque percebias que estavas a matar os meus sonhos e fantasias, simplesmente porque já tinhas dito tudo. A resposta já havia sido dada.

Imaginar que estava perdidamente apaixonada e enamorada de ti!!! Essa foi a dor maior, perceber que tinha sido uma entrega sem sentido.

Apaguei o cigarro que apenas tinha provado. A tua mão tentou tocar-me.

Levantei-me e olhando-te disse.

- Não te preocupes com nada. Sei o que tem de ser feito. Ninguém chegará até ti. Prometo.

Quase senti o teu corpo tenso a receber as minhas palavras, dava até para sentir o alívio instintivo que te percorreu.

Horas mais tarde olhava o futuro sem qualquer ilusão.

Apenas a certeza de que tinha valido a pena, apenas a tristeza de teres sido tu a receber o meu amor.

A certeza de que o amor tardaria a chegar.

E não, não fui a puta que quiseste que eu fosse.

Fui apenas a mulher que sabia que apenas poderia amar um homem, e a ele somente poderia entregar-me.

Não fui de fim-de-semana, e ninguém chegou até ti.

A certeza de saberes que já não sou tua existe entre nós, em cada dia, em cada momento do nosso trabalho. A cada instante que me olhas, e em cada momento em que me nego a retribuir-te o olhar recebes a promessa que te fiz. Ninguém chegará até ti.

Não sei se, algum dia, amarei de novo.

Sei apenas que ainda não esqueci a dor de te ter amado.

publicado por eu34 às 17:34
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23 comentários:
De Anónimo a 6 de Junho de 2005 às 10:41
História pesada, densa, onde o desenlace de uma vida em comum é observado de um ângulo muito particular, como que um zoom em detalhes que definem o insucesso. Verdadeira ou imaginária, é uma história bem contada. Parabéns.

PS: tenho um apelo de solidariedade no meu blogue. Se puderes conto contigo.
Beijo***NILSON
(http://nimbypolis.blogspot.com)
(mailto:nimby33@hotmail.com)
De Anónimo a 5 de Junho de 2005 às 09:33
Não sei se a história é real, tambem não importa, podia ser e isso magoa.
Saber que demos tudo e perdemos o que nunca tivemos é triste.
ContinuaSandra Nunes
(http:\\contagemdecrescente.blogs.sapo.pt)
(mailto:sandrablog@sapo.pt)
De Anónimo a 5 de Junho de 2005 às 03:23
Muito forte... como já nos habituaste. E tristemente verdadeiro vezes demais... A minha perda não foi assim, mas senti-a a cortar-me neste momento. Dói até quando? É melhor dizer que o tempo se encarregará de curar tudo... mas não cura. Apenas ameniza, mas a cicatriz fica e pode sempre abrir. Beijo, num estado pessimista...Carla
(http://papoilasdoces.blogs.sapo.pt)
(mailto:cferreirapedro@sapo.pt)
De Anónimo a 4 de Junho de 2005 às 22:32
Na minha pouca experiência e estupidez natural te digo que melhores dias virão e muita força porque a vida é assim mesmo. O amor...sempre o será. Feridas saram feridas. Beijinhos!Patrícia
(http://www.osoldatuaalma.blogs.sapo.pt)
(mailto:crazyflower1703@hotmail.com)
De Anónimo a 4 de Junho de 2005 às 22:24
Estás add. beijokituxas.Pensamentos em Branco
(http:/pensamentosembranco.blogs.sapo.pt)
(mailto:anakatcc@hotmail.com)
De Anónimo a 3 de Junho de 2005 às 23:35
Olá!!
Falar de amor por vezes é complicado e interpreta-lo mais ainda.
Peço desculpa n fazer nenhum comentario mais alargado ao texto escrito neste post, mas a minha inspiração está um pouco em baixo (ha dias assim)
Fica aqui um beijinho para ti e votos de um optimo fim de semana Gonçalo
(http://www.norastodasondas.blogspot.com)
(mailto:goncalo_t@hotmail.com)
De Anónimo a 3 de Junho de 2005 às 13:24
Então? Já lhe deste? Bolas! Tenho de ir ai? "Hó meu marmelo! Tu não andas com a minha irmã dois anos e depois dás o fora assim que as coisas começam a apertar! Se é para andar é para o bom e para o mau! Ai o menino..."Zuco
(http://www.citizenzuko.blogs.sapo.pt)
(mailto:zuco40@yahoo.com)
De Anónimo a 3 de Junho de 2005 às 10:26
Entrei apenas para te deixar um beijinho e desejar-te um bom fim de semana :)sylpha
(http://almanua.blogs.sapo.pt)
(mailto:sylpha@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2005 às 16:55
É claro que vais amar novamente. Sinto muita dor e desilusão nas tuas palavras, mas nada como o tempo para sarar as feridas deixadas por esse amor. Mil beijinhos!sussurros da lua
(http://blogfullmoon.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sdrcarvalho@hotmail.com)
De Anónimo a 1 de Junho de 2005 às 17:04
temos muitas alegrias na vida...o amor. às vezes há amores que nos esquecem rapido..mas para nós esquecermos a dor de os amar é pior. força. beijokituxas.Pensamentos em Branco
(http://pensamentosembranco.blogs.sapo.pt)
(mailto:anakatcc@hotmail.com)

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