Terça-feira, 13 de Setembro de 2005

A olhar a minha rua.

Daqui, onde estou, consigo ver o mundo.

Não o mundo todo! Isso não!!! Seria até ridículo acreditar que sim.

Vejo apenas o meu mundo.
A minha rua.
Observo os que me rodeiam e usufruo do que me mostram.



Sob o sol abrasador que me queima a tez, e num franzir de olhos, avisto lá ao fundo rua, no quebrar da curva, os meninos e meninas a patinhar na água da fonte, aproveitando avidamente os últimos dias de férias. Quase consigo ouvir as suas gargalhadas sãs, em risadas, soltas e frescas, de uma infância que corre ferozmente.

Subitamente atraída pelo lençol branco estendido no varal no quintal da vizinha reparo na menina, quase mulher, sentada feliz, no pátio do anexo onde vive como princesa única de seus pais.

Está a dias de entrar na faculdade, sem nunca ter chumbado “…e sem disciplinas deixadas para trás ou repetidas…” como apregoa, orgulhosa, a sua mãe, num alegria incontrolável que exprime a cada pessoa com quem se cruza. Sinto um nervoso solidário, com aquela menina perfeita, sabe o muito que esperam dela, numa exigência que compreende e assume, mas que, ainda, não sabe ser capaz de cumprir.



Um ruído castigador irrompe por este início de tarde sossegado. O rapazote do lado, nos seus espigados dez anitos acelera a sua motorizada miniatura, e com motor de moto-serra (digo eu), prenda da mãe, no último aniversário. O prazer que emana do seu rostinho faz lembrar o pai falecido há um ano, e um apaixonado pela duas rodas.

Daqui a pouco a avó lamentar-se-á, no portão, dizendo vezes sem conta que o pequenino lhe acaba com o descanso.



Do meu lado da rua, a Srª. M. sentada na sombra da sua varanda acena-me cúmplice e reservada. Retribuo o cumprimento, enquanto, mais uma vez, me delicio aspirando os odores do seu quintal. Ali existe uma profusão de cores, cheiros e movimentos que me inebria a alma e os sentidos. Num dia são os kiwis, noutro é o loureiro, noutro ainda são as ameixas, e mais tarde no ano, o tempo ajudando, serão os diospiros. Dádiva duma natureza generosa que adora partilhar.



Pouso a cabeça quente, e no início da rua as videiras cheias de uvas, cansadas à espera da vindima do próximo Sábado, exalam um cheiro embriagante a fruta doce e madura.



Ali, mesmo ao lado, anda o C. a bulir, homem já entrado nos “entas”, quase careca, que a vida bem cedo deixou dependente, não sabendo muito bem quem é, o que faz e quem o rodeia. Costumo dizer que”… vai ser menino da Comunhão para sempre…” pois foi nesse dia que a sua alma desistiu de crescer.

A sua mãe, viúva amarga, num vestir negro constante, parada junto ao tanque de rega vigia-o e a quem passa também.



Aqui, mesmo ao lado, é a casa do M. e da R., casados, já lá vão vinte cinco anos, sem filhos, primeiro porque não quiseram, depois porque não puderam. Têm uma cadela, a “Jolie”, que lhes assegura, de forma segura e eficaz, a propriedade e seus bens, pois ninguém se atreve a parar para admirar a nomeada beleza desta “Doberman” negra e feroz.

Tirando o Sr. D., pai do M. e sogro da R., que enfrenta a cachorra, dando-lhe umas “muletadas” enquanto abre o portão.

- Olá rapariga! – Cumprimenta-me, amparado pelas muletas na sua velhice já longa.

Lembro-me dele, como de mim, desde que me sinto como gente. O conforto que isso me proporciona é tão grande como o prazer que tenho quando ao Sábado à tarde visito a sua casa, e encontro a Srª. O., sua esposa, de rolos na cabeça e rede cor-de-rosa a segurar os cabelos já finos e fracos, num gesto que recordo desde menina de colo.

- Olá Sr. D., não deveria estar a descansar? – Pergunto para arreliar, sei que nem me vai responder, enquanto se dirige ao galinheiro, onde durante a tarde conversará com aquelas que alimenta todos os dias e que sem ele não existiriam, na voragem dos dias que correm céleres.



Atrás de mim, enquanto acelero o carro, os portões fecham-se e a minha rua fica para trás.








publicado por eu34 às 17:18
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