Quinta-feira, 29 de Setembro de 2005

Espaço vazio.

will_the_night.jpg
autor: Armindo Dias


Preciso adormecer.



A cabeça pousa solitária.

Pensamentos, decisões, perguntas, medos, respostas.

Que fazer…?

Será que…?

Terei feito bem?

Não deveria ter falado assim….

…

“Preciso de….”

“Onde está…?”

“É aqui que assino…?”

“Isto fica bem aqui?”

“Levas isto…”

…

Frases soltas.

Atitudes constantes.

Suspiro.

Dou respostas.

Ninguém me ouve.

…

Logo será igual.

Amanhã também.

Depois…



Estou tão cansada.


Terça-feira, 20 de Setembro de 2005

Resistir (sem data de regresso).



No silêncio das palavras escritas existem segredos, encontros e desencontros.

Acredito, que, em muito do que escrevemos existem gritos de socorro, desabafos, declarações de amor, descrições de momentos felizes.

Sei que poucas vezes conseguimos fazer passar a nossa verdadeira história, que não tem de ser necessariamente a nossa, mas aquela que queremos contar.

Nessas tentativas, tantas vezes infrutíferas, temos a felicidade de encontrar outras palavras, outros momentos e outras pessoas, que não sendo iguais a nós, souberam em determinado momento tocar-nos no nosso mais intimo “eu”.

E no desconhecimento virtual deste novo mundo partimos à descoberta dos outros, das suas palavras, das histórias que contam.

Histórias que nos encantam, que nos fazem chorar, outras em que rimos, outras ainda que nos fazem pensar, e existem as histórias de amor. Não as que lemos, ou até que escrevemos, mas as que criamos e vivemos enquanto personagens, mais ou menos reais, deste mundo feito de e nas histórias.

As emoções que vivemos nesta troca de palavras, frases, pensamentos fazem-nos sentir mais a vida, muitas vezes como refúgio de outra que não nos deixa ser quem somos, ou até quem quereríamos ser.

Já me apaixonei por textos, pelos seus autores, homens e mulheres sábios, constantemente à procura de vidas novas (as deles, e as que criam para nós) e que, soberbamente, assumimos como nossas, deixando-as entrar na nossa mente, corpo e espírito, assumindo assim um novo mundo, novas histórias, que já não são só deles, e muitos menos apenas nossas.

Nesta partilha ocorrem momentos inesquecíveis, de ligações extremas e inexplicáveis, seja pela leitura que outros fazem de nós e dos nossos escritos, seja pelo comentário que fica e que nos “obriga” a responder, numa tarefa quase compulsiva e sempre muito pessoal.

Enquanto escrevo estas palavras lembro-me daquele homem, que provavelmente lerá estas palavras, que num determinado dia entrou por mim adentro e me deixou abananada pelo muito que leu de mim, e recordo, sempre, o contacto directo, ainda que virtual, que estabelecemos e que nos fez conhecer um pouco mais de cada um.

Foram momentos de partilha intensa, numa descoberta quase infantil de temas, sonhos e (des)gostos comuns, a uma velocidade tão grande como o sonho de um novo amor. Depois foi o pousar os pés na terra e perceber que o nosso mundo, o dos adultos, é muito pouco sonhador, e nada solidário com homens e mulheres frustrados, encaminhados, e sempre responsáveis.

E nesse regresso à terra perdemos um pouco de nós, da ingenuidade e do sonho que ainda sobrevive no nosso peito e na nossa alma. E o “Adeus” sempre difícil e dolorido torna-se premente, senão em palavras (porque a coragem não é tanta assim), em atitudes desafiantes de um silêncio ensurdecedor.

Será que vale mesmo a pena lutar por um novo prazer encontrado na escrita, que mais do que um desafio é já uma necessidade?

Não tenho resposta.

Nem sei se algum dia terei, espero, no entanto, não desistir sem lutar.






Sexta-feira, 16 de Setembro de 2005

Li algures...

Falar do amor.

Absurdo.

Impossível.

Olhos escorrem.

Soluços sufocados.

O queixo treme.

Passos.

Correm.

A cabeça ergue-se.

Ninguém.

O silêncio.

Lento.

Instalado.

Na sombra.

Um coração.

Parado.

Tenso.

Afogado.

Lábios.

Cerrados.

A mão.

Sem pena.

Apenas.










Terça-feira, 13 de Setembro de 2005

A olhar a minha rua.

Daqui, onde estou, consigo ver o mundo.

Não o mundo todo! Isso não!!! Seria até ridículo acreditar que sim.

Vejo apenas o meu mundo.
A minha rua.
Observo os que me rodeiam e usufruo do que me mostram.



Sob o sol abrasador que me queima a tez, e num franzir de olhos, avisto lá ao fundo rua, no quebrar da curva, os meninos e meninas a patinhar na água da fonte, aproveitando avidamente os últimos dias de férias. Quase consigo ouvir as suas gargalhadas sãs, em risadas, soltas e frescas, de uma infância que corre ferozmente.

Subitamente atraída pelo lençol branco estendido no varal no quintal da vizinha reparo na menina, quase mulher, sentada feliz, no pátio do anexo onde vive como princesa única de seus pais.

Está a dias de entrar na faculdade, sem nunca ter chumbado “…e sem disciplinas deixadas para trás ou repetidas…” como apregoa, orgulhosa, a sua mãe, num alegria incontrolável que exprime a cada pessoa com quem se cruza. Sinto um nervoso solidário, com aquela menina perfeita, sabe o muito que esperam dela, numa exigência que compreende e assume, mas que, ainda, não sabe ser capaz de cumprir.



Um ruído castigador irrompe por este início de tarde sossegado. O rapazote do lado, nos seus espigados dez anitos acelera a sua motorizada miniatura, e com motor de moto-serra (digo eu), prenda da mãe, no último aniversário. O prazer que emana do seu rostinho faz lembrar o pai falecido há um ano, e um apaixonado pela duas rodas.

Daqui a pouco a avó lamentar-se-á, no portão, dizendo vezes sem conta que o pequenino lhe acaba com o descanso.



Do meu lado da rua, a Srª. M. sentada na sombra da sua varanda acena-me cúmplice e reservada. Retribuo o cumprimento, enquanto, mais uma vez, me delicio aspirando os odores do seu quintal. Ali existe uma profusão de cores, cheiros e movimentos que me inebria a alma e os sentidos. Num dia são os kiwis, noutro é o loureiro, noutro ainda são as ameixas, e mais tarde no ano, o tempo ajudando, serão os diospiros. Dádiva duma natureza generosa que adora partilhar.



Pouso a cabeça quente, e no início da rua as videiras cheias de uvas, cansadas à espera da vindima do próximo Sábado, exalam um cheiro embriagante a fruta doce e madura.



Ali, mesmo ao lado, anda o C. a bulir, homem já entrado nos “entas”, quase careca, que a vida bem cedo deixou dependente, não sabendo muito bem quem é, o que faz e quem o rodeia. Costumo dizer que”… vai ser menino da Comunhão para sempre…” pois foi nesse dia que a sua alma desistiu de crescer.

A sua mãe, viúva amarga, num vestir negro constante, parada junto ao tanque de rega vigia-o e a quem passa também.



Aqui, mesmo ao lado, é a casa do M. e da R., casados, já lá vão vinte cinco anos, sem filhos, primeiro porque não quiseram, depois porque não puderam. Têm uma cadela, a “Jolie”, que lhes assegura, de forma segura e eficaz, a propriedade e seus bens, pois ninguém se atreve a parar para admirar a nomeada beleza desta “Doberman” negra e feroz.

Tirando o Sr. D., pai do M. e sogro da R., que enfrenta a cachorra, dando-lhe umas “muletadas” enquanto abre o portão.

- Olá rapariga! – Cumprimenta-me, amparado pelas muletas na sua velhice já longa.

Lembro-me dele, como de mim, desde que me sinto como gente. O conforto que isso me proporciona é tão grande como o prazer que tenho quando ao Sábado à tarde visito a sua casa, e encontro a Srª. O., sua esposa, de rolos na cabeça e rede cor-de-rosa a segurar os cabelos já finos e fracos, num gesto que recordo desde menina de colo.

- Olá Sr. D., não deveria estar a descansar? – Pergunto para arreliar, sei que nem me vai responder, enquanto se dirige ao galinheiro, onde durante a tarde conversará com aquelas que alimenta todos os dias e que sem ele não existiriam, na voragem dos dias que correm céleres.



Atrás de mim, enquanto acelero o carro, os portões fecham-se e a minha rua fica para trás.








Sexta-feira, 9 de Setembro de 2005

Silêncios.

Deitada sobre o teu peito respiro cadenciada pelo teu coração, num batimento constante e sossegado, repleto de segredos.

…

Ontem quando me aproximei de ti pedi-te apenas o silêncio dos amantes.

A promessa foi feita sem palavras.

A tua mão segurou a minha pousada no teu braço, e num sorriso quase escondido aos olhares distintos fizeste-me seguir contigo.

No carro parado olhaste-me longamente, cheio de perguntas, esperando apenas que te encarasse certa do meu desejo (conheces-me suficientemente bem, identificas os meus medos apenas no toque da minha pele), percebendo que não te encarava, tocas o meu rosto numa carícia suave e ergueste-me o rosto.

Perdi-me na escuridão do teu desejo, na ânsia de te amar, aproximei-me da tua boca quente, e beijei-te.

Num beijo molhado, cheio de vida, palpitante, onde línguas, lábios, sabores se misturam num carícia eterna e tão profunda que nos permite chegar ao limite de um prazer antecipado.

Os nossos corpos não se tocando, pressentiam, estimulados, um calor e uma necessidade premente.

Quis tocar-te, negando-me prendi as mãos no regaço, inclinada sentia, deliciada, a tua boca penetrando a minha pele, os lábioS que me chupavam, a língua que me lambia.

Sôfrega, insaciada, recuei para ver esses olhos negros de prazer. Num esforço supremo tentavas mantê-los abertos e a tua mão tocou-me.

Dono de mim, do meu corpo, da minha alma, do prazer que ambos sentimos e que juntos queremos levar mais além,

Ajeito o corpo frustrado no banco, seguro a tua mão no meu regaço, aguardo que me leves ao nosso destino.

Suspiras profundamente num trejeito quase animal, o carro em movimento.

- Onde queres ir? – A tua voz soou-me zangada, percebi que te sentias perdido.

- Não quero ir para o teu apartamento! – Respondo baixinho.

Sinto que me olhas, mais uma vez não me entendes, sabes que nunca vais conseguir perceber as minhas razões.

A tua mão larga-me e segues para o motel mais próximo.

O silêncio entre nós torna-se ensurdecedor, encolho-me enquanto olho a paisagem que passa, fecho os olhos. Preferia conversar. Connosco nunca foi preciso ligar o rádio do carro, as nossas conversas sempre fluíram ansiosas, quase receosas de que não tivéssemos tempo, numa necessidade brutal, quase de vida própria, num esgotar de palavras que renasciam a cada nova inspiração.

Abres o vidro do carro e percebo que chegamos. A tua voz calma pede um quarto de número par, sorrio, soubeste lembrar-te, embora essa minha superstição seja algo que também não entendes, afinal lá dentro os quartos são todos iguais.

Os desejos também, os prazeres que se procuram, encontram, vivem.

Saio na tua frente.

Enquanto sobes abro a cortina, procuro o ar que me falta, e espero por ti.

Abraças-me, enquanto me deixo aconchegar contra o teu peito, a tua boca desce sobre o meu pescoço e inicias um percurso feito de saudades, de momentos roubados, de sonhos e fantasias adiadas.

Mais tarde ambos satisfeitos, calmos, num recobro sempre lento e doce, os nossos olhares dirão o que as nossas bocas, a nossa pele e o nosso corpo viveram, numa partilha única de salivas, suores e explosão de prazeres.

Na simplicidade do nosso olhar límpido guardaremos, mais uma vez, a recordação que o corpo e a mente não esquecem. Para um reviver sempre extasiado e pletórico.

Durante a noite fui a tua amante sonhada e desejada. Foste o meu homem, o companheiro que sonhei em menina, o amante das minhas fantasias de mulher.

Não adormeci, tentando retardar o momento do acordar, do retomar da vida de todos os dias, explorando cada segundo, num toque fortuito, num novo prazer, numa nova glória dos sentidos.

…

Agora enquanto o dia entra pela frincha da janela ouço a chuva que cai lá fora.

Ergo o meu corpo nu, onde o prazer resiste no meu peito empinado, onde a tua vida ainda reside em mim, e sussurro baixinho “Amo-te”.

Sei que não ouves, por isso posso revelar-to.

Deito-me sobre o teu peito moreno.

Espero que me ames de novo.

…

Em silêncio.














Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

Frio.

Enquanto escrevo o vento frio, que entra pela janela, faz-me estremecer.

De frio.

De saudade também.

Do tempo que foi e que há-de vir

Do amor que vivi e não voltará.

Recordo, feliz, as horas em que amei e acreditei nesse amor.

Que não voltará.

Não existe e não acredito.

A palavra perdeu-se num último suspiro de prazer.

Num desejo louco, quente, irrespirável, mortal.

“Amo-te” – ouvi-te dizer uma única vez.

Não estavas comigo, nem enfrentavas o meu olhar apaixonado.

Tinhas-te ido embora.

E eu soube que nunca deveria ter-te amado.

“Nós” foi um sonho perdido na voragem dos sentidos.

Que experimentámos.

Que ainda hoje sobrevive.

Nos olhares que trocámos.

No toque que teimas fazer-me sentir.

Mas…

Já não acredito.

Em mim.

Em ti.

Em nada.

Em ninguém.

Levanto-me e fecho a janela.

Já não tenho frio.
Quarta-feira, 7 de Setembro de 2005

Azar.

Tocou o telefone, o visor indica a origem.

Não quero atender e em silêncio vejo a chamada acabar. Sem remorsos apago o número e friamente atiro o telemóvel para o fundo do saco.

Sei que no fia da tarde vou encontrar um sem número de mensagens, uma infinidade de tentativas.

Não quero saber, não quero mesmo saber.

Apagarei cada mensagem, cada “chamada não atendida” certa de ter de repetir a acção até que um dia te canses de o fazer.

Até ao dia em que finalmente acredites que não és importante para mim.

Porque nunca foste e nunca serás.

Estou cansada de to repetir. Exausta de argumentar. Farta de ti.

…

Talvez devesse ter esperado que te cansasses de mim para depois saíres de mansinho, certo de mais um caso que passou, orgulhoso das façanhas que te levariam à próxima conquista.

…

Mas não...

Cansei-me de ti.
Terça-feira, 6 de Setembro de 2005

Nada.

Ontem adormeci ainda o dia brilhava lá fora.

Deitada no meu sofá esqueci a rua e seus transeuntes.

Ao acordar percebi que o dia recomeçava, a chuva entrava pelas frinchas da porta, a cortina dançava empurrada pelo vento.

Levantei-me ensonada, descalça no chão frio, acorri a olhar lá fora numa saudade da terra saciada.

- Que procuras? – ouvi no silêncio.

Fixei a rua vazia.

Corri a janela, as cortinas pousaram quietas.

Subi ao meu quarto, atrás de mim as marcas dos pés molhados.
Segunda-feira, 5 de Setembro de 2005

A nossa rua.

Olhaste-me e nem sabias que eu estava lá.



Nos últimos dias encerro-me por trás da cortina da sala e apenas deixo o tempo passar. Nem o enorme desejo de sair para o jardim quando passas consegue fazer-me ultrapassar o esconderijo da minha sala.

E nem percebo porquê!



Afinal durante as últimas semanas, sempre que te pressentia, corria, de regador na mão, disfarçando a ânsia de te observar na expectativa inútil do teu olhar.

Continuo a olhar para ti, e tu sentes que a sombra do meu jardim está longe do teu olhar. Talvez por isso olhes em redor procurando o que nunca viste.



Ontem à noite passei na tua rua, passo rápido e constante, sem me atrever a olhar para a tua janela, onde a luz acesa pela noite dentro me mantém acordada solidária com as tuas noites claras.

Senti nas costas uma vontade enorme de olhar para trás, num desejo contido de perceber se olhas pela janela, se vês quem passa, ou se apenas os fantasmas da nossa rua acompanham o meu caminho. Um calafrio percorre o meu corpo solitário na noite orvalhada.

Na curva que ultrapasso, célere, refaço o caminho de volta.

Passo na tua janela e continuo para casa.



Não olhei mas sabia que estavas lá.

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