Quarta-feira, 31 de Agosto de 2005

Olhar

seaSand1.jpg
foto by: Marília


Desceste a rua sem olhar para trás.

Fechei a cortina e em silêncio me deixei ficar.

As palavras presas rebentavam-me as têmporas numa dor reconhecida.

A garganta seca latejava seca.

Ergui o rosto, enfrentei a luz do dia que findava, desci as escadas, entrei no carro, liguei o CD onde as palavras “…no love, no glory…” ecoaram.

Conduzi o carro num percurso só meu.

Ao longe o pôr-do-sol num vermelho quente entra pelo mar adentro.

O ar quente e rarefeito invade-me as narinas, acelero um pouco, preciso de cheirar o mar intenso, salgado e fresco.

A praia invadida num Agosto quente mantém-se lotada de corpos em cujos rostos se reflectem as alegrias de um dia bem passado, o cansaço de um dia que acaba ou até a antecipação de uma noite partilhada.

Caminho por entre eles, desvio o olhar a cada rosto que me enfrenta.

A areia molhada faz-me perceber que a linha de água está na minha frente.

Derrubo-me na areia, ergo o rosto ao azul intenso, que no infinito luz num brilho hipnotizador.

A maresia, da noite que começa, cobre o meu corpo, os cabelos pintalgados de ténues gotas de água, os braços, as pernas, o rosto, as mãos que na areia procuram conforto.

Estou só.

Não penso em nada, em ninguém.

Despojada de tudo, e de todos, olho o horizonte expectante na busca de mim.

Quem fui?

Como vivi?

Quem quis ser?

Como teria vivido?

Quem quero ser?

Como quero viver?

Quem sou e como vivo?

A luta já foi cerrada e mortal, neste momento sobrevive dentro da mim. A derradeira batalha de uma guerra que não soube enfrentar e pela qual em determinado momento me perdi.

Sei apenas que uma parte de mim acabou por desistir de tentar viver, e nessa luta desigual perdi mais do que alguma vez acreditei ser possível.

E perguntei ao silêncio, quebrado pelo silvo das gaivotas que se achegam às redes da última pescaria do dia, se o que resta de mim é suficiente.

A resposta não me é devolvida.

O sonho continua menos ingénuo, menos crédulo mas ainda cheio de esperança.

Subo a praia.
Refaço o caminho de volta.
Sexta-feira, 5 de Agosto de 2005

Férias

Boas Férias e sejam felizes!
Fiquem bem, muito bem.
Segunda-feira, 1 de Agosto de 2005

Vai Linda ... (eu espero).

agaDSC_3307sep2.jpg
(foto: Martin Klepcki)

Um dia quando eu for grande quero deitar a cabeça no sossego alvo da minha almofada, fechar os olhos, e sentir que está tudo bem.

Nesse dia vou relembrar o cheiro do teu pescoço quente, das tuas mãos suaves, da tua face doce, do toque da tua pele morena e tão suave que faz lembrar a seda.

Depois vou ouvir as tuas palavras, sentir o tom da tua voz e recordar com saudade a forma como me chamavas.

Vou recordar a primeira vez que te vi e amei.

Vou sentir a primeira vez que te peguei.

Vou saudar o primeiro choro que te ouvi.

Vou chorar pela dor que senti quando a tua boca tocou o meu peito.

Vou sorrir pelos sorrisos que me deste.

Vou lembrar as gargalhadas que partilhámos.

Vou…

E depois abro os olhos, e na minha frente estarás tu!

Mulher feita, filha muito amada que com olhos tristes me afagarás o rosto, sem perceberes que a saudade que me aperta o peito vem desde aquele dia em que nasceste, rasgando as minhas carnes, num choro perfeito de vida.

Pois, ali naquele instante, nasceste única, forte e decidida, não me restando sequer a veleidade egoísta e maternal de algum te achar minha.

E então, nesse leito do descanso final recordarei também outros momentos de saudade, como aquele que vivo hoje, véspera da tua partida, como escuteira de uma vida pequenina.

E como fico feliz de saber deixar-te ir, mais feliz serei sempre que te vir voltar, pois ainda faltam muitos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos que me permitirão usufruir da tua existência e confortar-me com o teu olhar meigo e doce.


Para ti, minha filha, apenas desejo que vivas o que quer que o sonho te faça procurar, e na certeza de que ao teu lado, acompanharei o teu caminho.

E no dia em que deixares de me ver, saberás que olharei sempre por ti.

...

“- Amo-te muito!”

“- Também te amo Mãe!.”

“- Eu amo-te mais ainda, Filha!.”

“ – Pronto, Mãe tá bem!!!!... Agora já posso ir?” – impaciente e um pouco envergonhada respondes-me”

“ – Vai linda – grito para o autocarro apinhado (enquanto baixinho os meus olhos pedem “Volta depressa minha menina!”).






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