Terça-feira, 21 de Junho de 2005

A minha vida.

Existem dias em que questiono a minha capacidade de percepção do mundo. Hoje por várias razões cheguei à conclusão que não me percebo.

Não devo mesmo confiar em mim e nas decisões que tomo, pois olhando para o passado que me trouxe até aqui entendo que escolhi tudo mal.

Preferi ser amada a amar, rapidamente percebi que não era por aí...

Mas e força, capacidade, discernimento, coragem para alterar toda uma vida “feliz” e “perfeita”????

Eu que sempre havia apregoado as minhas certezas, as minhas crenças, sobretudo a coragem de quebrar todas as regras, porque não me preocupava em absoluto com o que os outros poderiam achar, vi-me de repente tão embrenhada e assoberbada por actos, acções e pessoas que não fui capaz de dizer não, de assumir o meu erro, sobretudo de virar costas ao que não queria nem amava e ir à luta, partir a cara ... viver.

E naquela altura eu podia tudo, era jovem, sem compromissos, nem responsabilidades... Pergunto-me porque o fiz? Por comodidade, ingenuidade, cobardia, medo... anda por aqui e nas mistura de cada resposta a verdade.

Logo assumi compromissos, e as responsabilidades.

E mantive uma vida de perfeição e felicidade, e hoje olhando para trás percebo que nunca me enfrentei, nunca parei para pensar no que sentia e a razão do vazio enorme que me atacava nos momentos mais inoportunos.

Nunca saí de fim de semana, nunca viajei, nunca fui a concertos nem sei o que é ter um grupo de amigos.

E apenas porque nunca quis, nunca desejei nada disso, e a desculpa para não o fazer era sempre o facto de ter que poupar dinheiro para isto e para aquilo, tentando mais uma vez, e como sempre cumprir o que se esperava de mim.

No entanto sei bem que a realidade era outra.

Nunca tive nada disso simplesmente porque não queria viver a intimidade de um fim de semana fora de rotina, não queria viajar com alguém que não me dizia nada, que era completamente alheio à minha sede de vida e à pessoa que eu realmente era, estar com alguém que não me estimulava.

Esta situação foi sendo ultrapassada com a apatia e a omissão de sentimentos, de vontades e desejos.

Um dia descobri que outra vida crescia dentro de mim, e chorei desesperada, porque não queria, porque não estava preparada, porque era ainda cedo e necessitava estabilizar a vida.

Tudo mentira, apenas não queria ser mãe de uma criança cujo pai eu simplesmente não amava, uma ligação eterna e finita, jamais poderia afastar-me dele, estaria para sempre ligada a uma pessoa que não queria para pai dos meus filhos.

E pela primeira vez o meu coração gritou alto e eu ouvi “... tem o teu bebé, vive para ele e acaba esse casamento de mentira...”, olhei à minha volta e amordacei aquelas palavras e em silêncio assumi uma vida que não desejara mas que poderia suportar.

Para quê? Porquê? Por quem?

Mais uma vez acobardei-me, acomodei-me, amedrontei-me e ingenuamente acreditei que não iria ser tão difícil assim.

Numa tentativa fútil e inútil de me enganar não percebi que o tempo e a vida se encarregariam de me fazer mais uma vez ouvir o grito do meu coração.

Alguns anos se passaram, o afastamento pouco evidente aos olhos de quem nos rodeava era como um fosso alagado e cada vez mais profundo.

E um dia apaixonei-me, ou talvez carente do que não tinha e sonhava entreguei o meu coração, a minha lucidez, a minha vida e perdi-me.

Disposta a tudo, esqueci quem era, quem eu amava, quem me amava e tornei-me amante de outro homem.

Mantendo as palavras que agora na minha cabeça latejavam silenciadas, deixei que o coração gritasse e errei.

Fiz tudo mal, não resolvi nada e estraguei, compliquei tudo.

Agora não só sabia o que era amar, como também sabia que não o deveria saber, não daquela forma tão contrária às minhas convicções e certezas.

Porque raios não resolvi a vida que tinha, mandava casa, carro e família às urtigas, e recomeçava uma vida nova?

Eu e a minha filha. Sei que teria sido capaz e por muita dor que pudesse viver seria de cabeça erguida, sem vergonhas, arrependimentos e sobretudo orgulhosa de mim e feliz pela luta enorme mas certa de um bom exemplo para a minha pequenina.

Mas não, deixei que tudo se descontrolasse e de um momento para o outro a vergonha, a dor e o medo assoberbaram-me, de tal modo que não vivo, apenas sobrevivo.

O amor que descobri tornou-se sinónimo de dor e mágoa para mim, mas especialmente para quem não deveria nunca sofrer pelos meus erros e hoje pergunto se valeu a pena.

A vida de todos os dias essa mantém-se inalterada, para pior, os silêncios agudizam-se, as palavras soltam-se cheias de raiva, falta a paciência, sobram as más vontades e os dedos apontados.

Sem perdão, afundada na culpa e no medo apetece-me partir mas não o faço.

E em dias como o de hoje apetece-me acabar com tudo.

Maldita vida a que vivo, cheia de mentiras e sonhos escondidos, maldita cobardia que me assola.

Até a maior felicidade que tenho é nascida de uma mentira, de sonhos desfeitos, de uma realidade que não soube e não pretendi enfrentar.

E quando alguém me diz “ ...já é tempo de voltares” eu sei que não posso fazer o que quero, apenas o que devo, mesmo que isso me mate devagar. Devagarinho.

E a ninguém posso responsabilizar, afinal ninguém é culpado de eu não ser quem sempre imaginei ser. Simplesmente porque não sou tão boa como pensei que era. Porque não sou forte como desejei e acreditei ser. Não sou que eu quero ser. E a culpada sou eu.
Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

Olhar para ti e ver-te!


Gosto de olhar o teu corpo nu, é um prazer que os anos me ensinaram a preservar, numa forma que me permite saborear cada instante infinitamente.

Gosto quando te despes e ofereces o corpo ao manifesto.

Gosto de apreciar as formas do teu corpo, na sua mobilidade inconsciente e constante.

Mais do que sentir o teu corpo, faço-o meu e tento perceber a sua reacção

…

Chegamos ao quarto escuro, delapidado de vida, inundado de segredos, fantasias e vontades.

Encostado no umbral da porta observas a curiosidade que me movimenta. Sorris, sabes que necessito de estar segura e confiante. Tenho de reconhecer aquele espaço como meu. Como nosso.

Pouso o saco, dispo o casaco e descalço-me. O telemóvel silenciado, as chaves do carro sobre a mesa. Abro as cortinas das janelas discretas, que apenas permitem perceber o dia ou a noite, e volto o olhar para a cama feita e perfeita.

…

Vens até mim, e num abraço apertado, que pensas acalmar-me o desassossego, inicias um longo e sempre insuficiente beijo.

È o nosso reconhecimento, é o momento em que as saudades morrem, e outras sensações nascem, para outras saudades que iremos ter.

Os teus olhos quentes sorriem-me, desejam-me e confirmam o prazer quase absurdo dos nossos beijos. Nesse toque de pele, lábios e línguas vivemos sempre o prazer e a surpresa do nosso primeiro beijo.

…



- Vens? – Encaminhado já para a sala, confirmas que esperas ver cumprida a minha promessa.

Nervosa, num prazer que me assusta, sigo-te os passos. Entro na sala no mesmo instante que te viras para mim.

O teu braço fecha a porta enquanto os nossos corpos apenas se roçam numa intimidade desconhecida e prometida.

Ofegante, num respirar quase temido, ergo o meu rosto ao encontro da boca que desce.

Nesse momento reconheci uma boca que nunca beijara, lábios que nunca tocara, língua que nunca provara e a saliva que nunca saboreara.

Beijei-te como sempre te beijara, lambi cada pedaço, provei cada humidade encontrada. Sem nunca o ter feito.

A tua boca encaixada na minha partilhava um prazer desconhecido, mas reconhecido. Como se as nossas bocas fizessem parte de um mesmo corpo, de um mesmo desejo, de uma mesma vida.

Não respirámos, não fechamos os olhos, apenas beijámos. Olhos, nariz, lábios, língua, pele, cabeça, mãos, braços, peitos, pernas, corpos num envolvimento único, desejado, inesperado e surpreendente.

Para ti.

- Foda-se…!!! – Exclamas, afastando-te de mim, num olhar esgazeado de espanto, os teus braços criando um espaço de segurança entre os nossos corpos. A tua excitação é evidente.

Sorrio consciente do prazer que experimentamos, segura de mim. Mulher. Teríamos feito amor ali mesmo. Acabarias por me confessar mais tarde que a necessidade de te afastares de mim fora instintiva e abrupta pois de outra forma já não conseguirias parar.

…

Agora que estamos juntos, e no beijo que partilhamos continua a existir essa magia, essa surpresa e certeza. Ambos sabemos que ninguém mais, em qualquer outro momento será assim, viverá assim o que nós vivemos um com o outro.

…

- Despe-te para mim, quero ver-te nu. – Sussurro num prazer antecipado.

Sorris, sabes que contigo sou livre, despojada de medos, sem tabus. Estou contigo porque quero, porque te desejo, porque te amo. Para mim é o único sentido do amor. A liberdade de amar, de dar, mais até do que receber.

…

O teu corpo moreno coberto por uma penugem quase negra. Alto, olhas para a cama onde deitada te observo numa gravação de sentidos e gostos. Quero tocar-te.

Deitas-te ao meu lado, braços atrás da nuca, pernas distendidas numa calma expectante.

Beijo-te os olhos, saboreio a pele fina das tuas pálpebras, as minhas mãos no teu peito sentem o coração que bate, seguram a vontade de ter dentro de mim.

O teu nariz inala forte, quase que respirando pelos dois, os nossos cheiros misturam-se, as bocas encontram-se, o nosso porto de abrigo, onde bebo de ti, onde sabes que o meu prazer começa.

Afasto-me para ver o palpitar do teu corpo, os teus mamilos espetados rodeados por uma auréola quase negra, a minha língua pousa-lhes delicada num pousar quase imperceptível. Quase sinto o teu arquejar, pressinto a vontade das mãos que mais tarde tocarão o meu corpo.

As pontas dos meus dedos escorrem leves pelo teu corpo, numa descarga de energia testemunhada pelo arrepiar dos pêlos, pela pele estremecida e tensa.

Os meus olhos percorrem cada pedaço de pele, observam cada musculo pressionado, a ligeira camada de suor que nasce no corpo que amo.

Abro ligeiramente a boca, numa necessidade premente de sentir o ar fresco que entra e desce pelo meu peito.

…

Os teus braços abrem-se e neles me aconchego num abraço nosso, cúmplice de afectos, e tão forte quão segura me fazes sentir.

Depositas beijos de sossego no meu rosto quente e corado.

- Amo-te. – Dizemos em uníssono, num silêncio de gestos, num gesticular de sons que nos fazem viver.

…
Terça-feira, 7 de Junho de 2005

...

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(foto de Paulo Machado)

Quando era menina Alice sonhava com uma vida imensamente feliz, e acreditava profundamente na sua concretização.

A Alice é uma mulher de contactos físicos, de químicas e de sentidos.

Toca para sentir a pele, a sua textura, o seu calor e reacção.

Cheira para absorver os odores do seu espaço e de quem dele faz parte.

Beija para saborear e apreciar o gosto de quem gosta.

Olha, observa, fica estática na apreciação dos corpos, das pessoas e seus comportamentos.

Ouve atenta as palavras soltas, os segredos e os desabafos que lhe chegam.

Para Alice tudo tem sentido, tudo é possível e viável, custa-lhe perceber os entraves e as considerações que fazem a esta sua postura crédula e confiante.

…

Alice é morena, tem cabelos e olhos castanhos-escuros, de estatura baixa. Anda sempre de sorriso rasgado até aos olhos, um piscar de olhos pronto para qualquer pessoa que se lhe cruze, uma palavra para quem a procura, e um colo generoso a quem precisa.

Não tem problemas que a aflijam e é capaz de enfrentar todo e qualquer desafio.

Afável e bem disposta sente e aprecia as pessoas como são, como actuam, falam e vivem as suas vidas. Incapaz de comentar e julgar comportamentos, custa-lhe aceitar e perceber a necessidade que outros têm de o fazer.

Não raras vezes dizem-lhe “…não percebo como podes gostar de estar com aquela pessoa… como podes tu ser amiga dela?...”, e a sua resposta é invariavelmente igual “…gosto das qualidades que tem, os defeitos nunca convivi com eles…”.

…

O tempo passou, os comportamentos mantêm-se.

Apenas Alice já não é a mesma, já não vive e funciona com a mesma ingenuidade.

Quando acorda pela manhã deixa-se ficar de olhos fechados numa tentativa frustrada de adiar mais um dia.

Quando se deita à noite mantém os olhos dolorosamente abertos, a mente ocupada com livros que lê, os ouvidos despertos aos sons que escapam da televisão, tentando evitar o inevitável fim de dia que iniciará outro sempre igual.

Alice já não sorri tão facilmente, os olhos deixaram de se iluminar solidários, o colo disponível de outrora está vazio de conforto e de contactos, as palavras que pronuncia são descomprometidas de calor e de sentido.

Alice deixou de acreditar nos sonhos que a fizeram sorrir, amar, falar, confortar e acreditar.

…

Quando olho para a Alice, lembro-me dos sonhos que tinha, da força que transmitia, sobretudo recordo a confiança inabalável no amor dos que a rodeavam.

Alice descobriu que o amor é destrutível.

Alice descobriu que o amor não sobrevive.

Alice descobriu que ser amada não era suficiente.

Alice descobriu que queria amar.

Alice descobriu tarde demais.

…

Descobriu que o amor acaba quando não é devidamente confortado.

Descobriu que o amor tem de viver e ser livre.

Alice quando começou a amar esqueceu quem a amava.

Alice perdeu o amor.

Descobriu que o amor que conhecia e descobria agora não era suficiente para compensar a perda do amor que os outros lhe tinham.

Alice não sabia nada, e quando começou a pensar que sabia percebeu que sabia menos ainda.

…

Como poderia ela saber?

Como poderia ela imaginar?

Afinal saber e imaginar não é o mesmo que sonhar, e Alice apenas sonhava.

…

Minha querida e ingénua Alice, como poderias saber que deixariam de te amar no momento em que começaste a amar outros que não eles?

Como irias saber que o amor que encontraste era contrário a todos os princípios que te incutiram e que sempre seguiste?

Seria possível não te conhecer devidamente? Não terem percebido que quando encontrasses o amor irias querer vivê-lo? Afinal conheciam-te desde sempre…

Como saberias que a pessoa que sempre foste para eles não era a mesma que tu és?

Afinal tu foste sempre tu.

…

Pois é Alice, a vida não é feita de sonhos, principalmente quando eras a única a sonhar, e quando aquilo a que anseias é tão diferente do que todos os outros querem e desejam.

E olhando para ti, conhecendo-te como conheço sei que tudo aconteceu porque tu sempre foste quem eles queriam que tu fosses, o que não sendo contrário a ti, enquanto ser humano, tornou-se incompatível com o teu verdadeiro ser de mulher estimulado por um amor sonhado.

Os sonhos deles vividos através de ti bastaram-te, bastando-lhes também, enquanto nada afectou os teus dias ou as tuas noites.

A tua vida deixou de ser bastante para os sonhos que quiseste viver, e isso, eles não conseguiram suportar nem aceitar.

Afinal de contas tu não eras quem eles sempre conheceram e amaram.

E essa diferença era, é e será sempre grande demais. Para ti e para eles.

…

Para ti que não consegues perceber porque não te amam por quem és!!!!

Para eles que não conseguem perceber porque mudaste (eles não sabem que foste sempre assim…).



Tenho saudades tuas Alice.





.estou por aí... entre a realidade e os sonhos....

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