Quinta-feira, 10 de Março de 2005

Uma noite escura e fria

… Acordei contrariada.

Estava deitada de lado, encostada à beira do colchão, braços cruzados e traçados, fortemente, sobre o peito, pernas encolhidas.

Como sempre, aliás!

Ainda sob o efeito de um sono, desperto há pouco, consigo perceber que algo acontece paralelamente ao meu estado de sonolência.

Uma mão insinua-se junto ao meu corpo, dedos tocam, pressionam, rodeiam e penetram o meu sexo.

A sensação não é má.

De uma forma lenta e manhosa ajeito o meu corpo, tentando receber mais.

Uma boca toca o meu pescoço, um respirar rápido sobre mim, um hálito quente e desagradável atinge-me.

Acordo.

Definitivamente não é um sonho.

Afasto-me daquela mão, daquele corpo, daquele homem.

…

Não desiste, mau grado, e encosta o seu corpo em mim.

O sexo duro e proeminente faz-me raiva.

Mete-me nojo sentir aquelas mãos que me rodeiam, tocam e apalpam.

Tento, mais uma vez afastá-lo de mim.

Empurro-o, sou até bruta e rude.

…

Fica quieto no seu lado da cama, num silêncio ensurdecedor, castigando-me com as palavras que lhe pressinto mas que não revela.

“Merda, que porra de vida!”– penso eu, desesperada.

Tento não me mexer, é uma luta perdida, pois parece que tudo quer mexer, tudo dói, tudo tem vida.

…

Numa voz de cachorrinho a quem lhe tiraram o osso, quase choroso diz:” …faz amor comigo, porque não queres fazer?...”.

….

Humilhante para ele, raiva infinita para mim.

Afinal o que me custa deixá-lo tocar-me?

È um direito que tem, é um dever que tenho.

Dever insuportável.

…

Fazer amor!

E ele não sabe que para isso seria necessário amá-lo?

…

O corpo quente encostasse em mim.

Resisto a um novo empurrão que iria, pela enésima vez, findar numa discussão em que apenas me ouviria e certamente mais desprezo lhe riria ganhar.

Covardes que somos.

Covarde que sou.

…

Sente-me menos resistente e vira-me, aproveitando logo para levar a mão ao centro do meu corpo, quase me rasgando o string que não deixei de usar, mesmo sabendo que ninguém o iria apreciar.

Magoa-me com as mãos duras e ásperas.

Magoa-me porque não o quero.

Tenta beijar-me, sinto a língua a tocar-me no pescoço, no peito.

Não aguento.

Tenta aproximar-se da minha boca.

Viro o rosto.

O escuro do quarto esconde a minha repulsa.

Desce por mim, seguindo o ritual esperado.

Não o desejo, mormente o meu corpo deseja ser tocado, explorado…

Invoco as minhas últimas forças, engulo o pouco orgulho que me resta e toco-lhe nos braços, faço-o subir sobre mim, e digo-lhe numa voz embargada por lágrimas que ele não sabe sentir, nem perceber, e que nunca irá ver “entra em mim…”.

Ele não espera, e penetra-me, forçando um caminho que conhece e reconhece.

Não me vai beijar, não me vai lamber, mamar.

A minha boca e o meu sexo só suportam o amor que não é dele.

Espero que se venha depressa, pois assim satisfeito poderá adormecer, deixando-me livre.

Esse é o meu desejo.

Tenta de novo beijar-me.

Tenta, mas não consegue.

Frenética apresso os movimentos que o levarão ao alívio do corpo.

E ele vem-se, estremecendo a cada impulso, a cada movimento, a cada instante.

…

Sinto-o a vir-se, demasiado triste para ficar feliz por ele, miserável por não ter o mínimo de compaixão por ele, sobretudo não consigo ficar feliz.

…

Sai de mim, respirando a tropeções, satisfeito, leve, aliviado.

Tento não sentir nada, não respiro, não cheiro, não me toco.

A parede que criei para ele, é o muro que me rodeia.

- Vais ao banheiro? – Pergunto lentamente, sem emoção.

- Daqui a pouco – responde.

…

Levanto-me, devagar, sem movimentos nenhuns.

A luz da casa de banho brilha, nítido contraste com o olhar que lhe dou.

Faço correr a água, espero que aqueça, enquanto sinto o líquido que me corre pelas pernas, prova desnecessária de um tesão que não pedi.

…

Quente, a ferver, deixo escorrer a água pelo meu corpo, lavando-me.

A água é pura, como puro deveria ser o desejo de quem dá

E de quem recebe.

…

Automaticamente enxugo-me, sem me tocar – mais uma vez o meu corpo enoja-me, como se o simples facto de existir não fosse já castigo suficiente.

Enfio um pijama quente, enorme na sua largura e no conforto que preciso.

Apago a luz, fecho os olhos, deito-me.

Estava deitada de lado, encostada à beira do colchão, braços cruzados e traçados, fortemente, sobre o peito, pernas encolhidas.

…

Não vou sonhar.

Não quero.

Adormeço.


publicado por eu34 às 11:54
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9 comentários:
De Anónimo a 10 de Abril de 2005 às 15:53
Finalmente, consigo comentar aqui.

E, de cada vez que aqui entro, as lágrimas correm-me.

Porque me vejo ao espelho da tua alma.

Porque me vejo, quando pensava que, o defeito era meu, que aquilo que eu sentia, era uma coisa má.

Até que descobri, que a má não era eu!

Até que descobri, que fazer amor, não é a mesma coisa que fazer sexo.

E, nesse dia, recusei-me. E, disse: eu não sou um animal de cobrição.

Não estou aqui para te satisfazer. Estou aqui para ser amada.

E ele virou costas. Não sei se procurou outras.

Sei, que a doença, depois tomou conta dele, e eu, tomei conta dele, também!

Já não lhe pertenço.

Já não me toca.

Sei que me deseja, sinto-o no seu olhar, cada vez que me arranjo melhor. Por vezes dá indirectas. Mas repugnam-me as suas mãos, se me tocam. Repugna-me o seu olhar lascivo, quando por vezes, está mais atrevido. Mas não se atreve. Prefere-me como “amiga” a perder-me de vez. Não porque me ame. Mas, porque a doença dele faz com que precise de mim.

E, eu por vezes, sinto este peso em mim. Não o quero, mas tenho desejos, como qualquer outra mulher. Sinto o meu corpo em brasa e refugio-me nos sonhos. Nos sonhos que já tive ou, nos sonhos que acredito, ainda terei. Porque a esperança nunca morre.

Hoje solitária de mim, leio a felicidade dos outros, o que me torna feliz.

Acreditava, ser a única e pedia perdão a Deus, por aquilo que me fazia a mim própria passar.

Hoje, já não penso assim. Já é altura, das mulheres-objecto, dizerem BASTA!

Coincidência ou não, hoje no Blog do Fernando, do Fraternidades, dei esta resposta ao tema de, lê-a por favor…

http://lusomerlin.blogspot.com/2005/04/amor-o-inato-e-o-adquirido.html#comments

E peço-te licença, para colocar este teu texto, em resposta ao tema dele. Acho-o muito oportuno.

E, agradeço, sinceramente, a partilha que fizeste comigo, estou-te grata por isso.

Abraço carinhoso e solidário da Menina Marota
Menina_marota
(http://eternamentemenina.blogs.sapo.pt/)
(mailto:Menina_marota@sapo.pt)
De Anónimo a 23 de Março de 2005 às 13:04
Porque é que ele está na tua cama? Ou melhor: lembras-te ainda do homem que um dia convidaste para a tua cama? Aquele mesmo que amaste, que desejaste, que ocupa o mesmo corpo deste de agora. Lembraste dele? E ele lembrar-se-á do que já foi? E de quem tu eras? Se sim, então as noites podem ser quentes e luminosas, como já foram. Falem. Sem armas e sem armaduras. Falem. Eu e ela falámos...Zuco
(http://www.citizenzuko.blogs.sapo.pt)
(mailto:zuco40@yahoo.com)
De Anónimo a 11 de Março de 2005 às 11:02
Antes de mais quero agradecer a visita que me fizeste e agradeço-ta por dois motivos. Pela visita em si mesma, mas também pela oportunidade que me deste de conhecer este teu espaço, aquilo que sentes e pensas e a forma como expões os teus sentimentos. Gostei e voltarei concerteza e, se mantiveres esta linha, assim que reformular os links do meu blog este será contemplado... um beijo.garanho
(http://cogitando.blogs.sapo.pt)
(mailto:garanho@sapo.pt)
De Anónimo a 10 de Março de 2005 às 16:58
ah, jás agora ... eu leio muito, muito mesmo, e olha que poucos autores conseguem transpor sentimentos com simplicidade e intensidade ao mesmo tempo. Admiro-te sim, sabes disso :-)XUPA NU PIPI
(http://xupanupipi.blogs.sapo.pt)
(mailto:gakusha@sapo.pt)
De Anónimo a 10 de Março de 2005 às 16:50
:-)
Quem agradece sou eu ... obrigado pelo que me déste a ver préviamente
BeijoXUPA NU PIPI
(http://xupanupipi.blogs.sapo.pt)
(mailto:gakusha@sapo.pt)
De Anónimo a 10 de Março de 2005 às 14:20
Uma triste realidade que tão bem soubeste descrever...Corpos e almas
(http://corposalmas.blogs.sapo.pt/)
(mailto:tu_em_mim@hotmail.com)
De Anónimo a 10 de Março de 2005 às 13:20
...apetece-me chorar....pareces euquem quiseres
</a>
(mailto:esc3@sapo.pt)
De Anónimo a 10 de Março de 2005 às 13:13
Gosto do que escreves e como escreves...
Se soubesses o que é sentir que não somos desejados...falavas com ele.
Sofrem os dois...

BeijosMiguel
(http://oanodosonhos.blogspot.com)
(mailto:miguelgoncalves2003@hotmail.com)
De Anónimo a 10 de Março de 2005 às 12:09
Gostei de te ler! Escreves palavras de uma realidade quase arrepiante. Conheço esses teus sentimentos. São similares aos que já senti. Já pensaste em ser realista e falar com ele? Boa sorte.Tsciza
(http://blogiza.blogs.sapo.pt)
(mailto:tsciza@sapo.pt)

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