Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

Quarto sem luz ...

Mergulho na banheira de água quente, submergida, sustenho a respiração até ao limite. Lentamente, sem pressa, retomo a vida, enchendo o peito de ar.

Recosto-me contra a frieza gelada da cerâmica branca.

Cerro os olhos.

O corpo perde força, libertando-se do cansaço, do suor, do cheiro a cigarro. Livre do dia que acabou.

Com o pé empurro o frasco de óleo de banho para dentro de água, vazando a totalidade do seu conteúdo.

O cheiro a rosas invade o espaço num odor doce e agreste numa mistura almiscarada e sempre calmante aos meus sentidos.

Ninguém em casa.

O silêncio deixa ouvir os primeiros sons da noite, os pássaros anunciando o regresso ao ninho, os carros que passam céleres numa invasão de fim de dia, o ruído incessante dos cães adivinhando o regresso iminente dos seus donos.

Às escuras, aninhada na água quente, no silêncio do meu fim de dia escuto a minha voz. Os segredos invadem o meu peito, a luz invade-me o olhar, a saudade aperta-me o peito. Baixinho, a sussurrar, a voz dos meus sonhos ocupa o espaço que tantas vezes lhe roubo. Aquela voz silenciosa que poucos conhecem, e quase nenhuns entendem.

É a voz sem palavras, sem pronúncias, erros ou acentos. É a voz pura e nua que evolui dentro de mim, nunca me deixando esquecer quem sou e quem sonho ser.

Ergo-me sobre a água quase fria, o corpo pingando num restolhar de sons invasores. Abro o chuveiro, deixo a água queimar-me a pele, coloco o rosto sob o jacto forte, e, mais uma vez, sinto parar o tempo.

Acaricio o corpo quente enquanto liberto o creme hidratante espalmando a esponja contra o meu peito. Os cabelos embaraçados pedem atenção e sem paciência passo o creme que os manterá macios.

A água do chuveiro cai incessantemente entorpecendo outros sons e a realidade para além do espaço onde estou.

Os olhos abrem-se para encontrar a escuridão instalada.

O banho termina, enrolo a toalha nos cabelos e deixo que o meu corpo se enxugue naturalmente.

O espelho reflecte-me. Ou apenas reflecte os que os meus olhos vêm?

Deixo que a camisa de noite, branca, deslize sobre o corpo, segura pelas alças finas.

Descalça, subo ao quarto onde a cama aberta deixa ver os lençóis alvos que me estimulam os sentidos.

A luz da noite encaminha-me para a varanda, pela qual posso apreciar a luzes pequeninas de cada casa lá fora. As empanadas verdes ficam abertas pela noite dentro.

Deito-me na cama larga, abraço a almofada vazia e adormeço.

…

Acordo.

A noite ainda é longa.

Levanto-me e no silêncio do meu tempo dispo a camisa que me sossegava o corpo e guardo-a com delicadeza na cómoda vazia.

Lá fora já não há carros, nem os cães ladram, sequer ouço os pássaros. As luzes, essas, continuam acesas como faróis num qualquer oceano desconhecido.

Na varanda as empanadas verdes são fechadas, a porta atrás de mim encerra-se.

O quarto fica vazio à espera das minhas saudades.

Desço à sala, ligo a televisão, a publicidade da madrugada invade o ecran enquanto visto o roupão que havia ficado no sofá, pego no último livro e aguardo que a noite acabe.


publicado por eu34 às 12:05
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