Domingo, 17 de Abril de 2005

Faltam apenas dias, horas, segundos....

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Recostei-me no banco e esperei.

A noite ainda não era cerrada, quase oito horas, a iluminação pública começava o seu piscar contínuo que mais parecia uma tentativa subliminar de adormecer a vida que ainda corria pelas ruas.

Pão, queijo em fatias e uma maçã compunham o meu jantar da noite.

Na rádio informavam, ainda, e repetidamente, das dificuldades do trânsito.

Suspirei, aborrecida, como se estivesse numa daquelas filas intermináveis que acompanham as pessoas no seu regresso a casa, no final de um dia de trabalho, e das quais não há fuga possível.

Ao meu lado vejo chegar aquela mãe cansada, que abre a mala do carro, num movimento repetido, donde retira as compras para o jantar da noite. Pela enésima vez, recoloca a mala no ombro, uma tentativa frustrada de desocupar uma das mãos. Abre a porta do edifício, trava a porta com os sacos e regressa para pegar no filho adormecido. Enquanto liberta o menino do cinto de segurança, pressinto-lhe o olhar terno, enquanto lhe absorve o cheiro quente, quase adocicado, restos de um dia que está a acabar.

Estremeço com saudades de cheiros que não quero esquecer.

Volto a olhar para a rua que desce, já iluminada, observo, indiferente, aquela menina, adolescente já, que espreita o fundo da rua, enquanto recebe um último beijo do namorado. As mãos sempre ocupadas com os livros e cadernos, telemóvel que não para de emitir e receber mensagens e toques. Iria jurar que nem falam um com o outro, simplesmente trocam sms. A adolescente recua no prédio, enquanto o rapazola, calças largas e descaídas na cintura, inicia o seu retorno a casa, o telemóvel de novo a tocar.

Sintonizo uma emissora no rádio, e, pela segunda vez, ouço o conselho do dia, “palavras para reflectir”, numa voz que sai monocórdica, numa tentativa quase sempre falhada para que a mensagem fique retida em qualquer memória.

Fecho os olhos e tento recordar a última música que ouvi.

“Quelqu’un m’a dit que tu m’aimais encore!” de Carla Bruni. Mas não foi na rádio. É a música que ouço incessantemente, constantemente repetida nos meus sonhos.

Ainda de olhos fechados, pressinto as vozes, ainda longe para que as ouça, mas perto o suficiente para que as reconheça.

Recomponho o corpo já alerta, sacudo os cabelos, pestanejo várias vezes, apurando o olhar para o que vou presenciar.

O menino moreno corre na frente, parando a cada chamada de atenção que lhe fazem, para logo recomeçar numa energia infinita. Cabelos curtos, escuros, sempre de mochila colocada, fralda da camisa de fora, olhar atento. Observa tudo, nunca olhando, num instinto desconcertante de criança.

Noto que está mais alto, talvez mais magro.

A menina vem segura pela mão, rendida à fragilidade dos seus três anos, arrasta pelo chão uma manta que já foi cor-de-rosa. Laço azul no cabelo escuro, usa um bibe cheio de rabiscos, hoje meio solto, talvez tenha alguns botões desapertados. Afinal hoje esteve calor. Ergue o olhar e sorri.

Um sorriso aberto e feliz. Continua linda.

Ele leva-a pela mão, na outra segura a mochila que tem o feitio de um coelho, também segura os casacos dos filhos. Tem o nó da gravata desapertado, o fato escuro sobre a camisa quase sempre azul. Descontraído, neste final de dia, caminha atento ao menino que corre na sua frente.

Vai parar na montra da papelaria, onde a última novidade infantil vai atrair o olhar sonhador da menina.

O irmão senta-se na beira do passeio, num movimento paciente de quem sabe que não vale a pena continuar. Olha para a rua, acena ao porteiro do prédio, onde vai entrar dentro de minutos. Olha para o pai suplicante, tentando abreviar a rotina de todos os dias.

A menina, nariz colado, na vitrina, escolhe a mochila que mais gosta.

Aquele homem grande ouve pacientemente, sabendo que o pedido será esquecido e logo trocado pela próxima atracção a fazer reluzir aqueles olhinhos já irresistíveis. Faz-lhe uma festa na bochecha e retomam o caminho.

Atenta, quase consigo ouvi-lo cumprimentar o porteiro que lhe dá conhecimento de algumas novidades do dia que passou.

A pequenita sobe-lhe pelo colo acima, consciente do conforto da sua casa.

A porta do prédio fecha-se.

Os meus olhos “vêm” quando ele chama o elevador, prime o botão que os levará ao quarto andar e suspira, satisfeito pelo regresso ao lar.

O elevador abre-se, os miúdos correm pela esquerda, numa energia renovada, quase caindo contra a porta do duplex onde vivem.

Procura a chave certa, no bolso do casaco, abre a porta, levanta a mochila esquecida do menino e deixa a porta fechar-se atrás de si.

Acompanho-o nas suas diligências diárias.

Os trabalhos de casa do João, o banho da Madalena, o telefonema para a mulher-a-dias para saber o que preparou para o jantar, pôr a mesa, ajudar a Madalena a acabar o último puzzle da sua boneca preferida, e repetir até à exaustão que os irmãos não gritam entre si.

Estremeço, olho para o relógio, já passou mais de uma hora.

A noite já instalada, a luz dos candeeiros ofusca-me o olhar, atraindo os primeiros insectos das noites quentes que recomeçam a cada ano.

Um carro qualquer, uma porta que bate, alguém fala alto, as grades da papelaria descem, encerrando assim um dia de trabalho.

No cimo da rua um carro escuro está parado. Sei que já lá está há alguns minutos.

Desligo o rádio. O silêncio invade-me e com ele a vontade de o quebrar.

Aguardo e logo vejo alguém, que não conheço, sair do carro, abre a outra porta e de lá sai uma mulher.

Adivinho-lhe o perfume, os cabelos claros, soltos e sedosos, acabados de pentear, a boca retocada e sempre brilhante pelo inseparável “gloss” com sabor a morango, os olhos azuis sedutores, delineados pelo lápis preto num contraste feito para evidenciar.

Bolsa a tiracolo, os óculos escuros pendurados na blusa decotada, o “blaser” displicentemente seguro por ambas as mãos.

Ela sorri feliz.

O homem afaga-lhe o rosto, numa carícia cúmplice, ajeita-lhe a blusa num gesto protector.

Olham em redor, seguros da solidão que os cerca e do segredo que partilham.

Ela inicia o seu caminho, segura, ele sem entrar no carro, abre a porta do carro, observa encantado a mulher que se afasta.

Sem olhar para trás, passa pela lavandaria, dá as boas noites ao porteiro que acabou o seu turno e que sempre se cruza com ela.

Na proximidade dos seus passos, vasculho o porta-luvas à procura de nada. Passa por mim, logo a seguir pára, a montra iluminada permite-lhe ver-se reflectida.

Sabe que está perfeita.

O porteiro da noite, acabado de entrar ao serviço, faz um qualquer comentário ao tempo, sabendo que não deve esperar resposta.

O elevador chega, fecha-se e sobe.

O sorriso cristaliza-se no seu rosto perfeito, respira fundo, sabe o que a espera. Entra então no seu duplex.

A casa agita-se. O João corre e abraça-a feliz, falando ininterruptamente do seu dia, do golo que finalmente marcou e do banho que já ia tomar. A Madalena ensonada aninha-se no seu colo, rosto enfiado naquele perfume sedutor, aconchegada pelo sorriso lindo que acaba de receber.

Apetece-me vomitar.

Pedro assoma-se à ombreira da porta da cozinha, cansado, camisa desfraldada, aberta no peito, avental na cintura, confirma a beleza da mulher que acaba de chegar e que ama infinitamente.

Acena-lhe consciente do momento que não é dele e confirma-lhe que as crianças já jantaram, a Madalena já ia dormir, o João assim que terminasse o banho também. Se ela quisesse podia ir deitá-los que o jantar manter-se-ia quente.

Provavelmente, Maria responde-lhe que não tem fome pois lanchou tarde, vai apenas deitar as crianças, tomar um banho rápido, pois está esgotada.

Um pouco desiludido, ou talvez não, arruma os restos no frigorífico, limpa a bancada da cozinha asséptica no seu aço frio e brilhante.

Apaga a luz da cozinha e sai para a varanda.

Saio do carro, em silêncio, olho para aquele homem e aguardo que acenda o seu único cigarro do dia. O único vício que ainda mantém. Inalo o odor que não chega até mim, mas que reconheço e desejo que me invada, e que deixe o seu rasto em mim.

Olha as estrelas que brilham, por entre as baforadas de fumo que sobem e se perdem.

È um homem feliz, tem a vida que escolheu, dois filhos lindos, uma mulher que ama e todos invejam, um trabalho que o preenche.

Os meus olhos seguem os seus movimentos, sentem os seus gestos repetidos. As lágrimas que me escorrem, pela cara, caem intermináveis e sempre renascidas.

Ele entra na sua casa, as luzes apagam-se, a TV ligada e reflectida nos vidros das janelas.

Levanto a beata caída no chão, ainda arde, saboreio o calor dos lábios que instantes antes a possuíam.

Deixo-a cair de novo, e entro no meu carro.

O meu jantar não aconteceu.

Volto para a minha casa vazia. Guardo o pão seco, o queijo bafiento e rançoso, a maçã amarelecida.

Deito-me na cama que partilhei com o Pedro, onde gerei os meus filhos João e Madalena.

Naquela cama encontrei Maria e Pedro amando-se como nunca fui amada.

Naquela cama tentei morrer.

Naquela cama renasci.

Renasci para ver Pedro feliz com a mulher que ama, e que o trai todos os dias.

Para ver João e Madalena felizes pelo pai que têm e pela mulher linda que o faz felizes e que nunca chora.

Para todos os dias viver a vida que não é minha.

Fecho os olhos, ajeito-me na cama, enroscada nos braços de Pedro, João e Madalena.

Adormeço feliz.

publicado por eu34 às 14:37
link do post | obrigada pela visita | favorito
30 comentários:
De Anónimo a 24 de Abril de 2005 às 14:40
Pelo menos foste amada, traída e tiveste filhos: tudo positivo, renascer e morrer também...aliás, na vida, temos que tornar tudo uma soma positiva e esquecer as subtrações..Beijo.so12
(http://www.naoeshomem.blogs.sapo.pt)
(mailto:so12@sapo.pt)
De Anónimo a 22 de Abril de 2005 às 01:51
Ora viva Cara Eu33... Li este seu texto mas não li a sua corrente literária... cá está. Gostei imenso dos pormenores pois a vida é mesmo assim: repleta de pormenores. Este texto é positivo ou pelo menos foi assim que o senti... ainda bem para mim, e espero que o tenha sido também para si. Um abraço... SHAKERMAKERshakermaker.blogs.sapo.pt
(http://shakermaker.blogs.sapo.pt)
(mailto:honkytonkwomen@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Abril de 2005 às 22:26
Este texto foi dos textos que mais gostei de ler, por todos os blogs que já percorri. Acabei, arrepiada, até um pouco tonta. Como ja disseram antes, simplesmente sublime.
beijos* * Vampiria
(http://www.childrenofglamour.blogs.sapo.pt)
(mailto:pppp@hotmail.com)
De Anónimo a 21 de Abril de 2005 às 19:35
=) Muito bonito e um muito obrigado pela visita! Estarás no meu cantinho com certeza! Beijinhos!Patrícia
(http://www.osoldatuaalma.blogs.sapo.pt)
(mailto:crazyflower1703@hotmail.com)
De Anónimo a 20 de Abril de 2005 às 14:52
Obrigada a todos pelo tempo que dispensaram a um longo texto. Obrigada a todos pelas palavras e comentários. Tentarei não defraudar ninguém, sobretudo a mim própria. E as minhas visitas aos V/ cantinhos, mais ou menos públicos, serão constantes.. As palavras que escrevi são ficção. Fiquem bem,eu33
(http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt)
(mailto:biquinha@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Abril de 2005 às 10:46
Adoro como escreves! Fico completamente absorvida pelos teus textos! Grande retrato de pequenas coisas, com as quais praticamente todos nós nos deparamos dia-a-dia... Bjs tecpalt
(http://nasei.blogs.sapo.pt/)
(mailto:tecpalt@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Abril de 2005 às 09:27
O que não se faz por amor!
alfa69
(http://daquidali.blogs.sapo.pt)
(mailto:aalmas@marbosserra.pt)
De Anónimo a 20 de Abril de 2005 às 08:51
Vol linkar-te, Posso??imar
(http://www.pianinhodosapo.blogs.sapo.pt)
(mailto:isarara@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Abril de 2005 às 07:47
Obrigado pelo visita ao Momentos de Vida, Só renegamos quem somos quando permitimos que não seja a nossa alma a comandar a nossa vida. Então afastamo-nos da nossa essência. Aquela que tão ricamente está nas palavras e nas entrelinhas do teu post de 4 de Abril, que já li. Mudar o passado é naturalmente, uma impossibilidade. Ao desistir de querer mudar essa impossibilidade, aceitamos o que foi e o sofrimento começa a diminuir. E, se formos capazes de reter e salvaguardar as memórias sagradas, passaremos a valorizar o que tivemos (mesmo que pouco) e que foi real e começamos a esquecer o que nunca tivemos. Quando quis alterar uma parte do passado sofri, quando o aceitei encontrei serenidade. A frase de entrado do meu blog foi inspirada em Echart Tolle. Fica bem.António
(http://momentosdevida.blogs.sapo.pt)
(mailto:AD_5158@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Abril de 2005 às 06:52
Já tinha saudades de passar por aqui. Escreves de uma forma muito apaixonante, é impossível parar a meio e deixar para outra altura! Beijos :)Carla
(http://papoilasdoces.blogs.sapo.pt)
(mailto:cferreirapedro@sapo.pt)

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