Sexta-feira, 22 de Abril de 2005

A porta aberta.

3.jpg


Fechei a porta.
Os olhos fechados guiaram-me até ao meu quarto. Descalcei as sapatilhas brancas.
Os pés nus, castigados pelo cansaço do dia, sentiram o frio da madeira que pisavam. Os dedos retraíram-se para logo se distenderem relaxados, apreciando assim o frescor da liberdade.
Apertei o olhos, forçando até magoar, pontinhos negros, brancos surgindo por todo o lado, qual caleidoscópio a preto e branco.
Tonta e quase em desequilíbrio, desabotoei os botões das calças, soltando o ventre escondido, respirei fundo e dei um passo em frente.
Entro no meu quarto, tentando adivinhar se a cama está desfeita como a deixei, ou se pelo contrário tudo está arrumado e no devido sítio.
Abro os olhos, o meu quarto está arrumado. As bonecas dispostas por tamanhos.
Habitualmente é pela cor dos cabelos que as disponho.


As de cabelos castanhos no chão, junto à janela, as ruivas no meio da cama simplesmente largadas, as loiras no espaço junto à cabeceira da cama deitadas nas almofadas, as descabeladas, nuas e pintadas estendidas na soleira da janela.


Volto-me, no penteador estão colocadas as caixas onde guardo os
acessórios. Na caixa verde lima estão os anéis e alianças, na caixa azul forrada com conchas partidas da praia estão os colares e pulseiras, na gaveta entreaberta percebo a fita vermelha que me segura os cabelos enquanto estudo,certamente agarrada à escova que me penteia.
Sento-me na cama. Respiro fundo. Não reconheço o cheiro que me rodeia.
Levanto-me de novo.
Abro o roupeiro. Lá está o meu impermeável vermelho, ompanheiro fiel nas minhas caminhadas pelo areal. O casaco castanho continua ali, esquecido na última cruzeta. Os jeans equilibrados num cabide único. Os claros e rompidos por baixo, os azuis esbatidos, já no acto de compra, pelo meio, os jeans
azul-escuro no topo.


Que mania a mãe tem de ter tudo alinhado!!!.


Na mesinha de cabeceira, castanha e que já foi mesa redonda num canto da sala, estão as fotografias. Alinhadas quase cronologicamente. Lá estou nua sobre uma almofada aos seis meses, a minha bicicleta azul com tirinhas amarelas
penduradas no guiador, a primeira comunhão e os laços brancos que me prendiam os cabelos castanhos, outra onde apareço mais crescida na praia com um rancho de meninas sorridentes e morenas.


A Alice, a Diné, a outra deitada ao meu lado parece-me a Nanda.
Mas não deve ser. Ela nunca sorria.


Ao centro, embaraçando-me, como então, está a foto oficial dos meus dezasseis anos, penteada no salão de cabeleireiro da esquina, em pose firme, olhar distante com um brilho que o fotógrafo nos seus retoques fez existir.
Do outro lado, alinhados na estante de contraplacado, estão os livros das horas soltas. Acho que estão todos.


Quando arrumo nunca os consigo juntar todos. À laia de decoração, deixo uns perdidos pela sala, outros na cozinha junto ao cesto da fruta, ou então espalhados pelo quarto numa desarrumação, convenientemente, arrumada.


Reparo, então, que a minha cama ostenta a colcha de renda branca, feita à mão pela minha mãe, anos a fio, esperando o dia em que me tornasse mulher.
Naquele dia em que o meu corpo de treze anos foi acordado, pelo sangue que me escorria pelas pernas, a mãe deu-me a colcha branca de renda, em ponto fechado, sinal de um ciclo que se fechava.
Ou seria pelo que então começava?
Nunca foi usada, era tão bonita que não me atrevia a deitar-me sobre ela, sabendo que o trabalho de anos seria maculado.

Hoje, o sangue, já não escorre pelas minhas pernas, antes pulsa pujante e quente, feito ninho aconchegante da vida que cresce dentro de mim.


Aliso a colcha, enquanto toco o meu ventre nu, afagando ambos, lembrando tempos idos, sabendo que deles vive o presente, para um futuro que já não é só meu.

Está tudo perfeito.


A mãe sempre disse que a apresentação de cada um, e do espaço que o rodeia, é reveladora da sua personalidade.
Nunca concordei, principalmente quando notava o seu olhar recriminatório sobre mim, observando as calças rotas e desfiadas, t-shirt emprestada, e as chinelas rompidas pelo uso constante.


Eram chinelas de enfiar o dedo, talhadas em couro, compradas numa qualquer feira de artesanato.
Eram lindas. Por onde andarão?


Saia para a rua feliz, despreocupada, certa de não estar errada nas minhas escolhas.


A mãe ainda iria perceber isso.


...
Ouço um ruído de chaves, a porta de casa abre-se, ouço os sons abafados de
passos que se tornam lentos, uma gaveta abre-se, as chaves caem lá dentro.
Não a ouço fechar-se. Alguém parou no corredor.
A alça do meu saco desaparece do chão. Alguém levantou o saco.
- Olá Mãe! - Arrisco inquieta.
O meu saco apertado contra o seu peito, os olhos aflitos trespassam o meu corpo por tanto tempo afastado.
- Então? Não dizes nada! - Insisto quase agoniada.
O silêncio da sua resposta dói. A dúvida no seu rosto rasga-me o peito em mil pedaços.


Mãe!


Dou um passo para ela, as suas mãos deixam cair o saco e enfrentam-me, palmas abertas, poderosas, negando o espaço que nos afasta.
Os seus olhos secos de lágrimas pujantes de dor. A dor que começo a entender.
Nas suas mãos aparecem os meus chinelos velhos, gastos, que aperta agora contra o rosto, contra o peito.
Sigo aqueles gestos sentindo neles um ritual há muito instalado.
Prostra-se junto aos meus pés descalços e nus, calça-me os chinelos que me serviram outrora.
Teimosa, empurra balbuciando,
- Já te serviram um dia, porque não servem agora? - Questiona no seu monólogo murmurado, sem procurar a resposta para além do seu olhar.
- Mãe, olha para mim - Rogo-lhe, enquanto me ajoelho à sua frente.
Os seus olhos piscam, as mãos tocam-me o rosto, num tactear de reconhecimento feroz, que me arranha e magoa.
As palavras saem em silêncio, surdas, numa incapacidade brutal de se fazer ouvir.
- Mãe, perdoas-me? - Baixinho, quase inaudível, sai o meu pedido, tantas vezes ensaiado, e tantas vezes rechaçado.


Quero que esqueça o tempo da minha fuga ao seu olhar, esse tempo que a fez envelhecer, chorar, gritar, procurar, esgaravatar em si forças que nunca pensou possuir, esquecer o espaço que a rodeava, morrendo a cada dia para logo renascer, na vã esperança de me encontrar.


O silêncio prolonga-se. Esmaga-me o peito cheio de saudades da minha mãe.
Passaram-se tantos anos.
Uma bofetada, outra e outra. Não as sinto, não me doem. Apenas o calor do meu rosto denuncia o acto de raiva.
Fecho os olhos, quero prender as lágrimas que se soltam, agora livres.
Sinto as mãos de minha mãe, limpando-as, olhos que sentem o meu choro em seus dedos, a sua boca bebendo os pingos de sal que caem, num gesto de saudade.
- Mãe? - Interrogo o seu silêncio teimoso.
Pega-me pela mão, amparando-nos ao levantar, olha o ventre despido que revela o meu segredo.
- Anda daí, fiz o teu bolo preferido! - Diz, enquanto a sigo obediente.
Na cozinha, sobre a mesa, o bolo de chocolate, a minha caneca branca rachada, restos que permaneceram à minha espera.
- Hoje faz anos que te fizeste mulher, neste dia anos depois, deixaste a escola, e hoje é também o aniversário do dia em que te foste embora ... - Diz baixinho, como que querendo actualizar-se, sem mágoas nem recriminações, apenas aceitando os factos.
Vacilo impotente perante a verdade.
- Hoje comemoramos o teu regresso. - Finaliza.
Sentamo-nos lado a lado na mesa da cozinha.
Uma réstia de sol anuncia o fim de um dia.
A sua mão repousa no meu ventre sossegado
- Obrigada Mãe - digo baixinho, num suspiro tranquilo.




publicado por eu34 às 19:51
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De Anónimo a 28 de Abril de 2005 às 10:49
Não te condeno por traires, aliás nem te digo q não seria o primeiro a "ajudar-te" a trair, por vezes a vida faz-nos dar tanta volta q tudo em q se acredita fica um pouco esgotado...José
(http://espantaespiritos.blogs.sapo.pt)
(mailto:j.g.f@portugalmail.pt)
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