Domingo, 8 de Maio de 2005

Era ela ...

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Um bulício nada habitual acontece na estação de comboios.

Ainda não são sete da manhã, e amontoam-se, a um canto, mochilas, sacos cama, lancheiras e cantis.

Olho à minha volta, tentando perceber a razão de tanto desassossego.

Lá vem eles, em bandos, devidamente identificados nos seus uniformes de escuteiro. Todos iguais, distinguem-se pela cor dos lenços que seguram ao pescoço.

O barulho é ensurdecedor, risadas roucas, olhos ainda remelados pela noite que acabou depressa demais.

Para eles.

Estou de jeans, pólo azul, meias e sapatos pretos, cinto a condizer. Numa mão seguro o telemóvel, a outra segura a mala que me identifica e a profissão obriga, e onde sempre arranjo um espaço para as chaves de casa e a carteira.

Levantei-me cedo, tinha-me deitado tarde e não consegui conciliar o sono.

Esperei demais por este dia. Conferi, vezes sem conta, o calendário onde identifiquei a data em que a vi.

Vejo no relógio, no calendário. Faz hoje, exactamente, um mês.

Vou voltar a vê-la. Reconhecê-la-ei?

Vai olhar-me. Vamos falar.

Recordar-se-á que é hoje. Foi ela que escreveu. Não vai esconder-se.

Tenho a certeza que hoje vamos tomar um café e conversar.

Uma voz irrompe pelo altifalante.

Pestanejo, olho ao meu redor, alerta.

Chega o comboio anunciado, a algazarra esquecida, ecoa de novo, quase insuportável.

Rapidamente várias carruagens são inundadas, ganham vida, perdem espaço.

Rostos de miúdos encostados nos vidros, outros por cima deles acenam, os mais velhos tentando ordenar o caos instalado.

O comboio parte.

Caminho até ao guichet onde vou comprar o meu bilhete. Não tenho destino, não sei para onde vamos, comprarei o último destino e sairei onde ela quiser. Com ela.

Ao meu redor o silêncio é quase reverente perante a minha ansiedade.

O ponteiro do relógio indica que ela não tardará.

Sento-me, a mala entre as pernas afastadas, pousada no chão.

Ouço um alarme de telemóvel, reconheço o meu toque, mas não o encontro.

- Merda, devo tê-lo deixado no balcão – murmuro entre dentes,

Um segurança aproxima-se, questionando com o olhar e a mão aberta a minha distracção.

Sorrio levemente, agradeço o cuidado, telemóvel já em meu poder.

Enquanto se afasta, apago o lembrete que o visor mostra e que o havia feito tocar momentos antes.

- Olá! – Ouço.

Uma voz rouca. Inesquecível.

O meu olhar prende-se numas sandálias vermelhas, que a mulher a meu lado calça, mantendo os pés junto, numa pose ensaiada.

Está a falar comigo. Estamos sós.

Volto o rosto para ela, encontro um olhar cálido, límpido. Olhos castanhos.

- Olá! – Replico num sopro de voz.

- Não tinha a certeza que viesse! – Fala, o seu olhar enfrentado a linha-férrea.

- Porque pensou isso? Sabe que não poderia deixar de vir – confesso.

Silêncio. Nem percebo se respira. Parece pensar no que lhe digo.

- Naquele dia olhou-me como se nunca tivesse visto outra mulher. É sempre assim? – A voz continua quente, menos doce.

Não, não sou, apetece dizer-lhe.

- Realmente naquele dia só a vi a si! – Sobranceiro, solto as palavras.

….

Tenho a nuca tensa, dorida, um nó no estômago, um amargo de boca. Sinto-me angustiado.

A mulher que está ao meu lado parece-me diferente. É ela, mas não a mesma que vi. Reconheço nela uma outra forma de estar.

…

- Vamos caminhar um pouco? – Sem esperar, levanta-se e caminha segura, num passo certo.

Levanto-me, rapidamente, enfio o telemóvel no bolso das calças, apanho a mala do chão, e sigo-a. A viagem, o bilhete comprado em vão. Deixo-os para trás.

…

Uma saia preta, pelo joelho, um casaco curto, da mesma cor, ajustado na cintura, numa elegância assumida e preservada.

As sandálias vermelhas destoam. Não são novas, estão até descascadas no salto alto. A comodidade que lhe dão no caminhar é a razão evidente para o seu uso.

…

Nunca gostei de vermelho. Ainda me recordo dos meus tempos de caloiro na faculdade, nas primeiras saídas em liberdade, nas tascas e bares que percorria, as suas cores de néon a piscar. Detestava entrar num bar com luzes vermelhas. Dentro ou fora. Ficava alucinado, não me reconhecia. Assustava-me.

…

O sol que se adivinhava ao levantar ensombrou-se num cinzento inesperado.

…

Apresso o passo, e lado a lado num silêncio que me agonia aguardo as suas palavras.

O silêncio oprime-me.

…

- Onde vamos? – Pergunto finalmente.

- Quero que me conheça, afinal veio encontrar-me, esperou por mim – As palavras são frias, a voz não é a mesma.

- Claro. – Aceito, numa voz escura do passado.

…

Continuamos pelas ruas, ladeamos carros e árvores, e aquela mulher nunca me olha, expressando no seu caminhar uma certeza fria do seu destino.

Finalmente pára, o edifico à nossa frente é imponente, numa beleza riscada ao pormenor. Um porteiro fardado vem ao nosso encontro. Cumprimenta-a com respeito, dirigindo-me um olhar insondável, treinado.

As portas automáticas abrem-se e entramos.

O elevador abre-se, levando-nos ao décimo andar. Um luxo discreto, silencioso rodeia-nos. O ambiente recorda-me a mulher que me fascinou, que acompanho descrente.

É então que me sorri.

- Desculpe o silêncio desta caminhada, mas necessitava pensar um pouco - Justifica enquanto entramos no apartamento que me indica.

Aceno, deliciado pelo sorriso, como se percebesse finalmente o que estava a acontecer-me.

…

Indica-me o sofá negro, onde me sento.

Desaparece.

Deixa-me só.

Na parede à minha frente um retrato mostra-me o seu rosto belo, deformado por lágrimas que escorrem, negras dos seus enormes olhos castanhos. Imponente, domina-me. Tem um fundo vermelho sangue que me incomoda.

Levanto-me, do outro lado um espelho reflecte-me, nas minhas costas o retrato.

…

Aqueles olhos, aquela dor, as minhas costas voltadas.

Eu já estive ali, eu conheci aqueles olhos, eu vi aquelas lágrimas sujas.

Um cavalo corre dentro de mim, pisando-me, num galope desenfreado de morte.

Preciso de respirar, tenho de sair daqui.

Tropeço cego, alagado numa memória esquecida, cada vez mais presente.

Caio.

…

As sandálias vermelhas à minha frente, numas pernas nuas, pintadas de sangue, em rabiscos de batón. Uma mini-saia vermelha raspada, gasta e justa. Um top vermelho de lantejoulas perdidas rasgado ao meio descobre-lhe os seios alvos.

O seu rosto coberto de maquilhagem. Lágrimas negras pintadas. Um queixo que treme. Uma boca violada onde, um dia, escorreu um fio de sangue.

…

Exibe-se poderosa, num medo há muito perdido na força que dela exala.

…

- Lembra-se de mim? – Uma voz suave e doce.

Balbucio, incomodado, cobarde.

Tento levantar-me, arrasto-me pelo chão em direcção à porta fechada.

Os seus passos seguem atrás de mim, numa alternância de posições, de um passado negro borrado de vermelho.

- Naquele dia no comboio quis matá-lo, mas não me reconheceu, e eu queria que soubesse quem eu era. É por isso que hoje está aqui. – Informou decidida – Não seria justo matá-lo sem saber porquê, não acha? – A voz calma, não espera que responda.

…

Descalça as sandálias vermelhas que vi sem reconhecer, e ajoelhada na minha frente, mostra-me os consertos que foram feitos, explicando cada tira cozida, cada prego, cada pincelada de tinta para cobrir os indícios daquela noite de perdição.

- Quando me largou naquele canto negro da rua, não tive forças para me levantar, e deixei-me morrer. Naquele dia matou a puta que usou e humilhou. Recorda-se do dinheiro que cuspiu e não consegui segurar?

A sua mão segurava uma nota irreconhecível no valor.

Incrédulo perante o cenário que não controlo, sinto o peito a rebentar, fecho os olhos, as imagens surgem na escuridão.

- Acordei dias depois numa cama desconhecida, cuidada pela mãe que nunca foi minha, que me curou as feridas do corpo, e da alma. Dizia-me “…menina faça-se mulher, aprenda tudo, nunca fique satisfeita, e um dia estará pronta para enfrentar o que agora quero que esqueça…”. No ano seguinte entrei na faculdade que frequentavas como finalista, sentei-me ao teu lado na cantina, participei nas reuniões do corpo estudantil que presidias, aprendi e tornei-me mulher. Conheci o teu melhor amigo. Apaixonámo-nos. Fomos para Londres. Voltámos há um ano atrás.

- Reencontraram-se não foi? – Espezinhando assim a recordação daquele dia em que revi o homem em que queria ter-me tornado – Falou-te de mim, o quanto me ama. Falou-me tanto de ti. Do solitário que és, do desprezo que demonstraste pela relação que vivíamos. Nesse dia percebi que já podia enfrentar-te.

…

- Segui-te, estudei-te e percebi que iria ser fácil matar-te, e sabes porquê? – Porque já estavas morto. A mulher que sou hoje é o resultado da tua morte. Naquele dia, ou noutros que viveste e nos quais mataste outras.

Assim, vais sair daqui, consciente de que não és nada, que és apenas um espectro à espera da morte física que teima em chegar, mas que mereces mais do que outro qualquer.

…

Ergo-me cambaleante, miserável, resto de coisa nenhuma.

Ela, ajoelhada, gigante no seu poder e firme da sua coragem, enfrenta o meu olhar.

Saio.

Para a vida que me resta, desejando que acabe já.

Sei que vai demorar muito, como o mês que passou.

…

Olhei-te nos olhos, soube quem foste, no ar que já não cheira a café.

Apenas o intenso odor da morte que vive em mim.


publicado por eu34 às 15:26
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8 comentários:
De Anónimo a 12 de Maio de 2005 às 11:55
Ora viva Cara Eu33... Gostei imenso deste seu texto mas na verdade não o entendi por inteiro. Sabe, eu sou estúpido e a dada altura perdi-me no enredo e não mais me consegui desenvencilhar. Já tornei a ler e há ali um ponto em que perco o rasto ao narrador e não volto a encontrá-lo. No entanto estou fascinado e o facto de não ter entendido por completo o texto, não me causa estranheza. Faz-me lembrar os filmes de David Lynch que já vi vezes sem conta, sem contudo os entender na integra. Além disso, sou um péssimo leitor pois é comum perder-me quando estou a gostar do que estou ler. Um abraço... SHAKERMAKERshakermaker.blogs.sapo.pt
(http://shakermaker.blogs.sapo.pt)
(mailto:honkytonkwomen@sapo.pt)
De Anónimo a 10 de Maio de 2005 às 17:33
não consegui distinguir se era ficção ou realidade. Mas qure importa?? está bonito o texto, isso sim.imar
(http://www.falabaixinho.blogspot.com)
(mailto:isarara@sapo.pt)
De Anónimo a 10 de Maio de 2005 às 14:29
um belo texto, palavras duras, numa vida desregada e com principios também, gostei muito e voltarei.
sofialisboasofialisboa
(http://sofialisboa.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sofialisboa@hotmail.com)
De Anónimo a 10 de Maio de 2005 às 11:37
Querida Eu33
Belo texto, mas fiquei com a impressão que não houve vingança (melhor assim), mas sim uma declaração de amor por quem tanto mal lhe fez... uma atitude redentora.
Um beijo
DanielDaniel Aladiah
(http://aladiah.blogspot.com)
(mailto:aladiah2005@hotmail.com)
De Anónimo a 10 de Maio de 2005 às 00:11
Era ela, a mulher esperada. Não seria aquele o fim esperado. Mas foi um "triller" vivo e intenso.
Amaral
(http://amaralnascimento.blogspot.com)
(mailto:amaralnascimento@hotmail.com)
De Anónimo a 9 de Maio de 2005 às 17:44
Começa cheio de vida com toda aquela algazarra na estação para acabar a citar a morte... e pelo meio uma história muito bem conseguida!Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)
De Anónimo a 9 de Maio de 2005 às 15:40
Ficção ou realidade? BONITO? Sem dúvida!inconfidente
(http://inconfidencias.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)
De Anónimo a 8 de Maio de 2005 às 17:36
Acho que foi o acordar de um pesadelo. Existem coisas que nos acontecem na vida que ficam a martelar constantemente na consciência! Um abraço.segundavida
(http://segundavida.blogs.sapo.pt/)
(mailto:jmelo887@sapo.pt)

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