Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

Inocência perdida.

Jeans azuis, top florido de decote profundo, soutien e cuecas de renda branca e recortada.

O banho quente havia deixado a pele pronta e sensível, o creme, levemente perfumado, hidratava a pele morena, deixando-a suave e sensível.

O espelho revelava uma mulher jovem, expectante, os olhos escuros cheios de brilho antecipando a partilha de um olhar há muito esperado.

Um sorriso rasgava as faces coradas, num nervoso escondido e miudinho.

As sandálias de salto alto dando-lhe a segurança de um equilíbrio estudado para o corpo pequeno.

Os cabelos de um castanho reflector de mil tons caíam suaves e soltos pelos ombros, acariciando meigamente o meio das costas.

As últimas gotas de perfume condensam-se na pele quente, escondendo-se silenciosas nos recantos mais íntimos de um corpo feminino.

Um respirar profundo exorta a coragem que não possui, e afasta os medos que a cerceiam.

…

Estacionada aguarda o carro escuro que a guiará ao destino que desconhece e deseja mais do que à vida.

O espelho retrovisor mostra a frente de um carro, no qual se desenha o perfil do homem que vai encontrar. Pára ao seu lado, o vidro desliza e ele sorri-lhe. O silêncio fá-lo inclinar a cabeça num convite proibido e logo aceite.

Arrancam, um atrás do outro, a mulher seguindo o homem. Ele conhece bem o caminho. Ela não sabe nada.

…

Entram no prédio discreto, ela reconhece cada pedaço, sem nunca ali ter estado, tantas foram as descrições que ele lhe fez, numa tentativa até aquele momento gorada de a fazer chegar até ele.

O apartamento fica no rés-do-chão permitindo um acesso rápido e fácil. Em nenhum momento aquele homem e aquela mulher poderiam ser ligados um ao outro, ninguém diria que aqueles dois seres se conheciam, e que entre eles havia um fio finamente tecido, feito de sonhos, fantasias, curiosidade e tesão. E amor.

Talvez alguém que passasse naquele instante pudesse olhar os olhos dela e ver o quanto aquela mulher amava o homem que seguia na sua frente.

A entrada é escura.

…

Lá dentro os olhos habituam-se ao escuro, vislumbram formas de móveis, percebem divisões que ela não conhece.

Ele, senhor do seu território, movimenta-se rapidamente, e desaparece no fim do corredor cinzento.

Sozinha, olha à sua volta, entra num sala vazia, o saco escorrega-lhe pelo ombro.

Ele está atrás de si.

…

Sente-o mais do que a si própria, quase como alguém que observa à distância uma história que não é a sua.

Volta-se e encara o homem alto à sua frente.

…

Ele está nú.

Não, não era assim que tudo deveria começar.

Ela não quer ouvir, não quer desistir, não pára para pensar, sacode a cabeça.

As vozes desaparecem.

Ele está ali.

À sua espera.

…

O medo de falhar fá-la forte, encorajando-a e guiando-lhe os passos de um caminho que hoje vai descobrir.

Os corpos tocam-se, as bocas beijam-se, as mãos apalpam e tocam numa excitação crescente.

As mãos dele são rápidas, os gestos também.

Ela, num assomo de uma lucidez perdida, ainda lhe sussurra “…estou aqui porque te amo…”. Não parece que ele a tenha ouvido. As palavras depois de soltas perderam a importância que continham. Até para ela.

…

Levanta-se e entra no WC, nem olha o espelho, apenas deixa a água fria escorrer-lhe pelo corpo inundado de odores.

Ele, que a seguiu, vem dizer-lhe que só há uma toalha que terão de partilhar.

Rápido, numa naturalidade feita de experiência, não percebe que aquela mulher apenas queria que ele a abraçasse.

Os pingos de água deixam pegadas atrás de si enquanto se deita de costas viradas para o espelho do roupeiro, o rosto na parede, os olhos tão abertos que doem.

O corpo dele cobre-a e recomeçam um caminho recente e ainda insatisfeito.

…

Mais tarde, ainda deitada e preenchida, observa a coberta miserável que cobre a cama onde repousa. A mão percorre os desenhos quase irreconhecíveis outrora revelados no tecido gasto.

O homem, percebendo-lhe os movimentos, vira-a para si e sorrindo diz “… bem vinda ao Estádio de Wembley…” enquanto solta uma gargalhada vibrante.

O sorriso que a mulher segura na face triste quase se apaga, sem esforço solta-se do corpo que a segura, junta a roupa dispersa e diz baixinho “…tenho de me ir embora.” ouvindo-o dizer enquanto se veste “…eu também, ainda vou a Vigo ao bingo, o A. está à minha espera…”.

Num esforço desumano ainda capaz de mimar o homem que a observa chega-lhe as chaves do carro.

…

Agora na frente, aquela mulher conduz de regresso ao parque de estacionamento onde horas antes esperara pelo seu amante.

Os trinta anos de vida pesam-lhe e percebe num relance que acabou de perder a inocência que acreditava ter perdido muitos anos antes, compreendendo agora que essa ingenuidade fora paga a um preço demasiado elevado.

No espelho vê reflectir o sinal de luzes que ele faz ao despedir-se enquanto a ultrapassa.

Acena-lhe sorrindo, o peito ofegante, a garganta oprimida, os olhos tristes e escuros.

…

O telefone toca o número dele aparece no visor.

- Amo-te linda!!!

O telefone desliga-se.

…

Na mulher serena que desce as escadas rolantes, no shopping, em direcção à amiga cúmplice que a aguarda, apenas se nota o brilho febril do olhar.

À sua volta tudo se mantém igual.

Ela não é a mesma.






publicado por eu34 às 17:02
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10 comentários:
De Anónimo a 16 de Outubro de 2005 às 00:54
Nunca somos felizes quando perdemos a nossa inocência.
Um beijo
Orfeu
(http://www.ruas-sem-nome.blogspot.com)
(mailto:mabaorfeu@portugalmail.pt)
De Anónimo a 13 de Outubro de 2005 às 21:54
Sabes o que é uma pessoa começar a ler e de tão absorvida que fica; a luz da secretária desaparece, o som da aparelhagem ensurdeceu, o cigarro no cinzeiro acabou por apagar, a aroma do licor foi-se, e só a pele arrepiada de emoção por aquilo que estou a ler é que restou...

Foi isso que aconteceu ao ler-te hoje... Parabéns miga, EXCELENTE POST...Perfect Woman
(http://perfectwoman.blogs.sapo.pt/)
(mailto:perfect_woman63@sapo.pt)
De Anónimo a 13 de Outubro de 2005 às 18:32
A delicadeza com que escreves não deixa de revelar uma verdade que até dói só de ler... Se ao menos eles soubessem que às vezes só precisamos de um abraço, não é? Que troféu valerá mais? Um sorriso que apazigua uns olhos tristes ou um corpo nú invadido à pressa como quem não quer perder pitada do jogo? Beijo enorme.Carla
(http://acarosnoarmario.blogs.sapo.pt)
(mailto:carla.pedro@gmail.com)
De Anónimo a 12 de Outubro de 2005 às 18:52
adorei... lembrei-me de momentos recentes que passei... jokinhasRapariga Perdida
(http://raparigaperdida.blogs.sapo.pt)
(mailto:aadffdf@afs.pt)
De Anónimo a 11 de Outubro de 2005 às 17:54
Demorou mas valeu a pena, como sempre. Acho que o facto da mulher ser mais emocional do que o homem tem contribuído para situações como essa. É por isso que há mulheres tão “amargas” com os homens. E nós, homens exemplares (e mentirosos) como eu, ( Lolololol) também somos prejudicados porque as mulher olham qualquer um como inimigo.
Agora fora de brincadeiras: gostei mesmo muito.
Bjs
P.S. já respondi lá no “meu” mas volto a responder aqui. A filha única é a minha “menina” ou a minha “princesinha”, como a tenho chamado ultimamente. A “nina” é a minha rafeira que é quase uma segunda filha.

José S.
(http://ruadobeco.blogs.sapo.pt)
(mailto:jgjs2@sapo.pt)
De Anónimo a 11 de Outubro de 2005 às 15:16
Ora cá está! Eu sabia que já tinha visto este filme em qualquer lado... http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_03.html (http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt/arquivo/2005_03.html) vejam o CHOVIA.
Temos a mesma história filmada de outro angulo, mas completamente diferente. Enquanto no Chovia imperava os sentidos, aqui são os sentimentos dos amantes que nos são apresentados. E como são diferentes estes sentimentos... Ela ama-o, ele é (apenas) um caçador com mais um trofeu. Aposto que foi contar ao A como papou mais uma gaja.
Amargo... Muito amargo... Real!
Zuco O Critico
(http://www.citizenzuko.blogs.sapo.pt)
(mailto:Zuco40@yhaoo.com)
De Anónimo a 11 de Outubro de 2005 às 10:59
Querida Eu33
Mas será que ela está feliz? Acho que não...
Um beijo
DanielDaniel Aladiah
(http://www.aladiah.blogspot.com)
(mailto:aladiah2005@hotmail.com)
De Anónimo a 11 de Outubro de 2005 às 09:23
"As sandálias de salto alto DANDO-LHE a segurança de um equilíbrio estudado para o corpo pequeno."
Aqui fica a exigida correcção. As minhas desculpas. Fiquem bem,
imagine_me
</a>
(mailto:biquinha@sapo.pt)
De Anónimo a 11 de Outubro de 2005 às 09:13
A deriva dos sentimentos com a realidade, e o agarrar à "fantasia" como salvação e perdição… está aqui Daniel
(http://seedsof.blogspot.com)
(mailto:seedsof@hotmail.com)
De Anónimo a 10 de Outubro de 2005 às 19:37
Excelente regresso, já estavamos a estranhar a sensualidade dos textos, que agora com novos ventos, nos voltaste a brindar.alfa69
(http://daquidali.blogs.sapo.pt)
(mailto:aalmas@marbosserra.pt)

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