Quarta-feira, 13 de Abril de 2005

Amor II (parte 2)

pb_dependencia.jpg

Quando vieste trabalhar na empresa encontraste uma miúda, desenrascada é certo, mas absurdamente ingénua, crédula, envolvida nos meandros da actividade empresarial. Afinal o 12º. Ano terminado, um ano antes, apenas me tinha dado bases para um crescimento que acabou por se tornar auto-didacta (com tudo o que tem de bom, e de mau).

Estas palavras introdutórias servem apenas para relembrar o meu primeiro ano de trabalho contigo.

Trabalhávamos, como ainda hoje, em sectores distintos.

O teu trabalho como Director Financeiro, conferia-te uma aura de poder, hoje mais esbatida é certo, mas que me impunha respeito.

O meu trabalho desde sempre ligado ao contacto pessoal e ao apoio administrativo (ainda me rio com esta do “apoio”, afinal era só eu que lá trabalhava, logo fazia tudo). O contacto com clientes, fornecedores, a própria gerência na altura, tudo isso implicava uma grande vertente humana no sentido em que as relações se estabeleciam numa base de conhecimento que me fazia feliz.

O meu trabalho era diferente.

Como eu sou tão diferente de ti.

Sem dúvida.

Desde logo, e numa primeira análise as deferências entre nós eram mais que muitas.

A empresa, recente no sector, primava pela poupança de pessoal, logo menos encargos, exigências enormes e os eternos horários inexistentes e sempre alargados.

E afinal que mal tinha?

Não tínhamos responsabilidades familiares, todo o tempo ocupado a trabalhar era bem aproveitado.

O facto de seres mais velho, experiente e com a responsabilidade de colocares a casa em boa saúde financeira, tornaram-te horrível.

Exigiam-te tudo, e tu logo te vingavas exigindo aos outros.

A mim (não havia mais ninguém).

Quantas vezes me fizeste chorar? Tantas e de tal forma que várias vezes equacionei ir-me embora. Hoje sei que o deveria ter feito. Afinal tinha vinte anos e um mundo à minha frente.

Eras tão pouco sensível!!! “Duro como granito” era a melhor forma de te descrever.

E não tinhas a mínima noção dessa tua característica. Mais uma vez o facto de sempre teres sido um homem só, mimado por quem te rodeava, fazia perceber que não conhecias os outros e nem te preocupavas com isso. Foste filho único, tardio no nascimento, tornado homem pela idade que passava, imaturo de afectos.

De qualquer forma conseguíamos manter um-não-sei-quê que permitiu criarmos cumplicidades que souberam perdurar até hoje.

Aquele primeiro ano a dois foi muito complicado.

Embora te temesse, era teimosa, e enfrentava-te de peito aberto, com a leveza da minha idade, sem subterfúgios ou manhas.

Ia casar-me em Agosto.

Ias divorciar-te em Novembro após uma separação de cerca de um ano.

Recordo o teu olhar espantado, incrédulo talvez, quando soubeste da novidade.

Não me recordo de teres efectuado qualquer comentário, ao contrário de outras pessoas.

Olhavas para mim várias vezes, durante os dias que iam passando, de uma forma que talvez nem tu percebesses. Pressenti que era algo que te incomodava. Talvez pelos meus “verdes anos”, talvez porque ainda me vias como uma menina.

Um incómodo que só anos mais tarde percebi.

Eu era uma mulher, e estavas a perceber isso, a miúda que trabalhava contigo ia casar. Sobretudo existia outra pessoa, outro interesse na minha vida. Era alguém que te era estranho. Era uma parte de mim que desconhecias.

Esse novo olhar sobre mim fez de mim tua confidente.

…

Namoravas imenso.

Recordo que atendia os telefonemas das tuas conquistas, fossem desse dia, da noite anterior.

Como se fosse hoje, recordo os gestos, a confiança que tinhas em mim, e já lá vão treze anos desde essa altura.



Ocupavas as duas linhas telefónicas da empresa (ainda não tinhas sido abençoado com o teu bendito telemóvel), e ainda a linha de fax.

Riamos cúmplices, porque estava atenta à chegada de estranhos (no nosso caso só os gerente), e tu porque falavas ao ouvido de alguém, e tinhas audiência (e ainda ouvias as minhas dicas).

Quantas vezes as aguentei em linha, com desculpas de outras chamadas, reuniões e afins?

Incontáveis.

De vez em quando cansavas-te do assédio e aí era terrivelmente mal-educado.

Ridiculamente infantil no tratamento que lhe davas, chegavas a ser ofensivo.

As tuas amizades coloridas, como hoje são comummente chamadas, eram tratadas como lixo, e infeliz daquela que pretendia ser para ti o que nunca quiseste que ela fosse.

Para ti eram cama, experiências, fantasias, descartáveis em suma.

Dizia-te “se elas soubessem quem realmente é, mandavam-no à merda e nunca mais quereriam saber de si. Se fosse comigo iria ver!!!”.

Piscavas-me o olho, sorriso maroto, como a esconder um segredo.

Eu sorria contrafeita contra a curiosidade que nascia. Curiosidade que vivia há muito tempo em mim.

-Queres confirmar? – Questionavas com picardia – Não sou egoísta – acrescentavas.

Fazia de conta que não ouvia e raramente te respondia.

…

Com o tempo chegaram as “nossas” sextas-feiras, último dia da semana.

Era o dia da nossa despedida para o fim-de-semana que chegava.

Agora, enquanto escrevo, percebo que era mesmo isso.

Esses dias eram aqueles em que te aproximavas de mim, entrando no gabinete de mansinho, e debruçavas-te na minha mesa.

Logo estendias a mão e tocavas-me o pescoço, atrás das orelhas. Instintivamente fugia desse toque, que só de lembrar me faz encolher. O meu corpo ainda reconhece os gestos, as sensações desse tempo longínquo e quase perdido.

Corada, pedia-lhe para parar.

Insistia, aproximando-se mais de mim, eu ria mais alto, quase gargalhada, no tentativa, talvez, de me distanciar e um momento mais intimo.

Agrafador na mão, qual escudo protector, conseguia evitar um contacto iminente.

Saías, para logo voltares. Tantos risos, gargalhadas intermináveis, e os nossos olhares, escuros, que trocávamos no segredo de um desejo profundo e latente.

Adorava aqueles momentos.

Sentia-me só tua, e ainda que por instantes eras só meu. Não consigo, mesmo com esforço, reconhecer o instinto que me garantia que éramos um só, mas estava lá a sensação de unidade.

E sinceramente, naqueles dias tudo era tão inocente, acredito que no intimo de cada um de nós, mais não havia do que prazer pela companhia que nos proporcionávamos.

E sendo assim, havia já o nosso toque, a nossa espera, a certeza do fim-de-semana que começava com a nossa despedida.

Quando aqueles dias não aconteciam assim, algo estava errado. Ou andavas amuado e rabugento, hábitos arreigados que ainda hoje subsistem em ti, ou eu em contrapartida andava atulhado nas burocracias das exportações da empresa, e sabias que eu não te corresponderia.

Naqueles dias menos nossos, olhavas-me e eu respondia, cansada, mas atenta e sempre atrevida:

- Fique descansado, quando eu quiser diversificar será consigo! Prometia, convicta de que nunca aconteceria.

- Vê lá, não demores muito – retorquias, enquanto saías.

Eu ria, baixava o olhar, retomando o trabalho, guardava na memória os teu olhar quente, e não pensava mais no assunto.

…

Durante anos foi esta a nossa rotina.
publicado por eu34 às 14:58
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13 comentários:
De Anónimo a 16 de Abril de 2005 às 16:35
è assim que acontece:)) Gostei muito da forma como contas prende-me parabéns, Acho que vou ler a parte um:)))
E vou ficar bem:) Bom Fds
JoãoJoão
(http://bamos.blogs.sapo.pt/)
(mailto:alvesalves69@hotmail.com)
De Anónimo a 16 de Abril de 2005 às 13:41
A vida prega-nos muitas partidas.......inconfidente
(http://inconfidencias.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Abril de 2005 às 17:45
detsto gente assim.......grrrrrrrr...jinhosAzorboy
(http://livretransito.blogs.sapo.pt)
(mailto:marco_Azor@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Abril de 2005 às 16:22
Zuco: Conseguiste ler o que não escrevi. Talvez já não seja preciso escrever o final. Notável. Fica bem, eu33
(http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt)
(mailto:biquinha@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Abril de 2005 às 15:41
Detesto este genero de gajos! Desprezo-os! E estive tão perto de me tornar num deles...Zuco
(http://www.citizenzuko.blogs.sapo.pt)
(mailto:Zuco40@yahoo.com)
De Anónimo a 15 de Abril de 2005 às 10:52
Daniel: A saudade que pressentes são as palavras escritas que relatam uma história de vida. Sentir a falta de alguém???? Penso que é a falta de algo que se partilhou... E que talves se tenha perdido para sempre. Obrigada,eu33
(http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt)
(mailto:biquinha@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Abril de 2005 às 10:49
Betty: Realidade ou Ficção" ... a nossa vida é feita de verdade e de mentira. Quantas vezes atribuímos significados diversos a situações similares? Na história de cada Ser Humano a realidade é feita de sonhos, momentos, procuras, uns realizam-se (Realidade), outros continuam à espera de serem vividos, sonhados e encontrados (é a Ficção). Obrigada,eu33
(http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt)
(mailto:biquinha@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Abril de 2005 às 10:46
Tecpalt: Obrigada por teres lido tudo. Ainda não acabou. Faltam apenas as palavras certas para terminar uma história. Obrigada,eu33
(http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt)
(mailto:biquinha@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Abril de 2005 às 10:43
Daniel Aladiah: Espero ter vontade de a contar. Anda cá dentro, mas nem sempre encontro as palavras para a tirar cá para fora. Obrigada.eu33
(http://enigmasolitarios.blogs.sapo.pt)
(mailto:biquinha@sapo.pt)
De Anónimo a 14 de Abril de 2005 às 21:54
Adirei-te nas palavras... embora não consiga prever o fim da história... sinto para já alguma saudade?? de alguém ou de algo... bjinhosDaniel
(http://www.seedsof.blogspot.com)
(mailto:seedsof@hotmail.com)

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