Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2005

Até lá...

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

Um dia volto...,
Qualquer dia recomeço.

Fiquem bem,

Quarta-feira, 16 de Novembro de 2005

Análise

Olhei para a manhã lá fora de um azul forte e sorridente e esperei que alguém se lembrasse. Mas não, ninguém se lembrou.

E eu fingi que não me importei. Fi-lo desde a hora que me levantei até ao momento em que pousei a cabeça na almofada, muitas horas depois.

Enquanto escrevo, sinto que verdadeiramente ninguém sabe quem sou.

Ninguém sabe o que me faz feliz, o que me magoa, o que me faz sorrir, e o que me faz chorar.

Não creio que a culpa seja deles, dos outros, embora me console acreditar que sim.

Sempre fui forte, capaz, desenrascada, presente e capaz de “ir ao fim do mundo” para resolver qualquer situação, houve até um dia que alguém me chamou “bombeira de serviço” e se naquele dia o tomei como elogio hoje encaro-o tão simplesmente como a forma como todos me vêem.

Não sei porque sou assim, ou porque me construí assim?

Porque me estou a enganar?

Claro que sei porque sou assim.

Lá em casa nascemos duas ao mesmo tempo, eu com o nome mais pequenito sempre era chamada em primeiro lugar, habituaram-me e habituaram-se assim. A minha companheira de parto, de alguma forma, tornou-se menos visível e menos “capaz” e desde então fui assumindo o controlo e a responsabilidade.

Habituei-me também a protegê-la e a querer viver tudo primeiro para experimentar, vivenciar e passar-lhe a palavra, evitando, assim, que fosse ela a cair primeiro e talvez a magoar-se.

Namorei, casei, fui mãe, abrindo caminho e deixando-o já experimentado.

De alguma forma assumi também um protagonismo que me fazia sentir bem e assegurava que poderiam sempre contar comigo.

Esqueci-me de viver para mim.

Não aprendi a crescer sem a presença dos outros, em mim, para eles e com eles.

Eu que abomino comparações fui deixando que o fizessem comigo, mantendo sempre o equilíbrio que nos satisfazia a todos.

Um dia percebi que também precisava de ser a menos visível, a menos capaz, queria alguém que tomasse conta de mim…

Descobri que ninguém estava preparado para aquela mulher ingénua, crédula, insegura, incapaz de tomar a SUA decisão, arrumar a SUA vida, assumir o controlo da SUA vida, sobretudo descobri que eu não era a pessoa que acreditava ser e estava a anos-luz desse ideal romântico e tão perfeito.

Num processo longo e doloroso percebi que não podia frustrá-los, deixá-los a mercê de simples caprichos, afinal eu já era crescida, tinha uma infinidade de responsabilidades, já era mãe, uma profissão à qual dava bem a volta!!!

Perante um cenário de quase destruição, percebi, ou pretendo saber, qual o caminho a tomar, e de novo me apresento forte, decidida, sem dúvidas e certa do meu caminho.

Sinto-me triste, sim, muitas vezes, de uma forma que quase me faz ficar doente fisicamente, mas não quero que ninguém perceba, ou que alguém assome o seu olhar perante o meu e descubra quem eu realmente sou.

E porquê?

Talvez o medo de que também eles descubram que eu não sou quem eles pensam e conhecem, ou pior, a certeza de que não me amam por quem sou mesmo, mas sim a pessoa que sempre conheceram.

Nessa ânsia de me esconder deixo que momentos importantes escapem por entre os dias que correm. Digo a mim mesma que “não faz mal”, “eu nem gosto de fazer isso…”, “não se preocupem, afinal é só mais um ano…”, ou “já estou “cota”, isso é para os mais novos, para as crianças…”. Quando, na realidade, e sendo o mais verdadeira possível, o que quero é que insistam, se lembrem, me forcem a fazer algo, que tomem um bocadinho conta de mim.

Estranho até este desejo vindo de mim porque não gosto de surpresas, no entanto sinto o desejo de ser surpreendida.

Acho que não é a mesma coisa. Não é, pois não?

Hoje, de novo me habituo ao dia a dia, sem que me doa tanto o facto de que “…afinal até gostava que …de ter feito…e ninguém mo fez…”, percebo que a culpa é mesmo minha, afinal se assumo essa forma de vida, porque raio tenho que me queixar!!!!.

Não posso perder a pessoa que sou, não saberia viver sem esse meu lado, no entanto o caminho para o outro “eu” mais pequenino, menos forte e corajoso, mais permeável e dependente é algo assustador, não só pelo caminho que leva, mas também, e sobretudo pelo destino que possa ter.

E aqui está outro enorme contra senso na minha vida, amo a expressão “não sei para onde vou, mas estou mortinha por lá chegar…” e não vivo em conformidade, pior, assusta-me demais o “não saber”.

Já passaram alguns dias desde aquela manhã lá fora de um azul forte e sorridente…
Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

Pergunto...

Pergunto-me constantemente porque não me olhas nos olhos, é algo que me deixa incomodado, e sei que percebes isso.

No outro dia falei contigo, nem sequer era sobre nós, e nunca, mas em nenhum momento, enfrentaste o meu olhar.

É tão estranho sentir que me ouves e não me vês, é como se nem estivesses ali ao pé de mim.

E se te pergunto, fazes de conta que nem havias percebido o facto, contemplas-me de relance, com um olhar que atravessa o meu corpo.

Não sei como chegar até ti!

Quando chegas de manhã os teus bons dias são rápidos e generosos, nem sequer te dignas piscar-me o olho, como em tempos me habituei.

Observo-te pelos vidros do gabinete, mando-te mails, passo à tua frente vezes sem conta, conto-te as minhas últimas compras, faço comentários de futebol, peço-te uma bolacha, uma “trinca” da tua maçã.

Sei que me vês a fazer tudo isto (ainda me lembro da tua visão periférica!),no entanto, raramente respondes aos meus mails, e se o fazes é através de um comentário seco e que bem podia ser para o padre da freguesia, nunca te apercebes se as roupas que visto são novas, no futebol o nosso clube já não é assunto que nos sirva de desculpa para namorar, as bolachas sou eu que as retiro do pacote que fica na última gaveta, enquanto me viras costas para buscar uma qualquer impressão que apenas nesse instante te lembras de pedir, a maçã posso bem comê-la sozinho, pois sei que já não voltas a mordê-la.

Hoje regressaste do almoço em cima da hora, vinhas a falar ao telemóvel com uma voz meiguinha que me fez morder o lábio de raiva. Desligaste o telefone a sorrir, com a voz sussurrada dos amantes, e suspiraste no fim.

Com quem falavas?

Qual seria o tema da conversa?

Porque sorriste?

Que ouviste que te fez suspirar?

Hoje ao fim da tarde vi-te tirar as moedas para o café, fui atrás de ti, até ao refeitório, queria estar contigo, roubar-te um beijo, cheirar-te, sentir o teu corpo apertado contra o meu, respirar-te, ver-te corar enquanto fugirias devagarinho para logo te aconchegares em mim.

A tua cara quando me viste entrar!!!

Não estavas mesmo à espera, pois não?

O facto de eu aparecer foi uma surpresa para ti e não percebo porquê.

Engoliste o café quente, que sei detestas tomar assim, e logo te encaminhaste para a porta, sem mesmo te fazeres a mim, nem com um olhar.

Feito menino, ainda te falei, fazendo-te ver que não havias comentado as botas novas, ao que respondeste que eram bonitas, e que iria ter sempre os pés quentes, despachando o assunto, e deixando-me a falar sozinho.

A porta fechou-se nas tuas costas.

Ou será que se fechou na minha cara?

Minutos depois ouvi-te a rir, bem disposta, apressei o passo e ainda vi de relance os olhos brilhantes, o rosto vibrante, o passo apressado como que a afastares-te de mim.

Bem sei, que é tua vontade não ficarmos juntos, mas no passado, nunca foi impedimento para as recaídas, sempre apaixonadas e viciantes.

Sabes que me viciei nos teus beijos?

Como foram as tuas palavras?

“... pensei bastante, e não vejo qualquer possibilidade de algum dia sermos felizes juntos, não posso continuar iludida, e sobretudo a alimentar-me de ilusões que só me fazem mal.... ambos temos as nossas vidas e como tal temos que respeitar quem nos acompanha...”

Se ao menos tivesses percebido como detestei o que escreveste!!! Cheguei a odiar-te naquele momento, não porque não te compreendesse, mas porque te senti fria e distante, de uma forma que eu nunca tinha experimentado.

Nem quando éramos apenas colegas de trabalho e eu te chateava e te fazia chorar com a minha rudeza e falta de sensibilidade!!!!

Acho que me habituei a ter-te sempre minha, fiel, leal e apaixonada.

Sinto-te tão longe de mim.

Já não me amas?

...












Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005

Alice perdeu o amor.

Ali deitada, num sossego quase torpe, Alice olha o homem deitado a seu lado

Ontem, ao deitar-se na cama vazia, não esperava que ele viesse acordar ao seu lado. Não o desejava sequer.

Os olhos fechados atribuem ao homem uma tranquilidade quase infantil, num contraste vigoroso com o seu corpo grande.

Quando Alice acordou, esticando-se na cama grande, à procura dos espaços frios que a fizessem recolher o corpo numa bola fechada, retendo assim o quente da cama, sentiu que não estava sozinha.

Devagar abriu os olhos sonolentos e viu-lhe os cabelos curtos, a testa relaxada, a boca cheia, o nariz grande, a face quase escondida por entre as almofadas. O peito moreno, coberto pela penugem, outrora escura, hoje pintalgada de laivos brancos e grisalhos, sobe e desce tranquilo, numa respiração serena, quase inaudível.

Alice aproxima o seu corpo pequeno do homem adormecido. A respiração dele torna-se mais espaçada, num controle próprio de alguém que acaba de acordar.

“Olᅔ a voz rouca, entaramelada, sobressai no silêncio matinal sobressaltando Alice na sua observação.

Sem resposta, o homem abre os olhos.

Alice recua por entre os lençóis já frios, cobrindo o rosto nos folhos da fronha azul escura, e ali se deixa ficar alerta e atenta.

- Ontem, quando cheguei, dormias, resolvi não te acordar…! - Suspira, numa quase desculpa, pela invasão do espaço que ocupa.

- Não esperava que viesses. – A voz de Alice sai segura, amável, tensa. Sem perguntas.

- Porque não? – Interroga ele, aproximando-se suavemente do corpo encolhido, colocando a perna por cima do corpo de Alice, pressionando-a contra o colchão e arrastando-a para junto de si.

- Não sabia se voltavas… – Alice responde enquanto as suas costas encaixavam no peito amplo.

As mãos grandes cobrem-lhe os seios pequenos, a perna dura e pesada aperta-a contra ele.

- Tive saudades tuas... – Sussurra, o hálito quente, por entre o cabelo de Alice.

A boca repousa então silenciosa na curva do pescoço, silenciada pelo desejo intenso que o corpo do homem exprime.

Alice desprende-se do corpo que a segurava, erguesse da cama desfeita, de pé olha para trás para encontrar o olhar vazio, desconsolado do homem.

- Deixas-me aqui? Assim?!!! – Apenas a voz reflecte a emoção presa no corpo faminto.

Alice ajoelha junto à cama baixa, os seios contra a beirada da cama fria, as mãos apertando os lençóis desfeitos, o olhar de um chocolate fervente encara o rosto que se ergue apoiado pelo cotovelo.

- Habituei-me a não esperar por ti! - As mãos de Alice, soltas e suaves, acariciam o rosto masculino.

O homem fecha os olhos, absorvendo o toque, encostando o rosto nas palmas abertas das mãos frias. Pressente na voz de Alice, de uma tristeza infinita, uma verdade aceite e já cómoda, como se o tempo que havia passado fosse já feito disso mesmo, de passado e nostalgia.

Incomoda-o não perceber em Alice a entrega de outros dias, outras noites e manhãs, como se algo lhe escapasse por entre as mãos, num descontrole pouco habituado a experimentar.

Alice, de novo em pé, veste a gabardina cinzenta, aperta com força o cinto, calça os sapatos pretos de salto agulha, recolhe no saco a restante roupa que não quer vestir.

- Vais-te embora Alice? – A pergunta sai-lhe em tropeções, num esgar de nervos e raiva.

“Sim, vou para casa…” suspira a mulher jovem enquanto se dirige para a porta. Volta o olhar para o homem que, em pé, a observa afastar-se. Um último olhar.

- Alice?!!! – A voz embargada de uma emoção desconhecida fica no ar, expectante.

A porta fechada, um olhar rápido, as chaves de Alice pousadas na mesa.

O diário de Alice, aberto na última página escrita, revela a noite passada a escrever.

“Ele não veio. De novo. Habituei-me a não esperar por ele, e nesse hábito aperfeiçoado todos os dias, noites e manhãs esqueci-me do amor. Hoje descobri que não sei amar. Já não sei amar. Hoje não espero por ele. “

O ponto final forte e bem pisado revela uma vontade forte, uma certeza convicta. Sem “Adeus”, sem “Até à próxima”.

Deixou-o sozinho, sem ninguém para quem voltar.

Chora.

Não percebe porque Alice foi embora.
Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

Quarto sem luz ...

Mergulho na banheira de água quente, submergida, sustenho a respiração até ao limite. Lentamente, sem pressa, retomo a vida, enchendo o peito de ar.

Recosto-me contra a frieza gelada da cerâmica branca.

Cerro os olhos.

O corpo perde força, libertando-se do cansaço, do suor, do cheiro a cigarro. Livre do dia que acabou.

Com o pé empurro o frasco de óleo de banho para dentro de água, vazando a totalidade do seu conteúdo.

O cheiro a rosas invade o espaço num odor doce e agreste numa mistura almiscarada e sempre calmante aos meus sentidos.

Ninguém em casa.

O silêncio deixa ouvir os primeiros sons da noite, os pássaros anunciando o regresso ao ninho, os carros que passam céleres numa invasão de fim de dia, o ruído incessante dos cães adivinhando o regresso iminente dos seus donos.

Às escuras, aninhada na água quente, no silêncio do meu fim de dia escuto a minha voz. Os segredos invadem o meu peito, a luz invade-me o olhar, a saudade aperta-me o peito. Baixinho, a sussurrar, a voz dos meus sonhos ocupa o espaço que tantas vezes lhe roubo. Aquela voz silenciosa que poucos conhecem, e quase nenhuns entendem.

É a voz sem palavras, sem pronúncias, erros ou acentos. É a voz pura e nua que evolui dentro de mim, nunca me deixando esquecer quem sou e quem sonho ser.

Ergo-me sobre a água quase fria, o corpo pingando num restolhar de sons invasores. Abro o chuveiro, deixo a água queimar-me a pele, coloco o rosto sob o jacto forte, e, mais uma vez, sinto parar o tempo.

Acaricio o corpo quente enquanto liberto o creme hidratante espalmando a esponja contra o meu peito. Os cabelos embaraçados pedem atenção e sem paciência passo o creme que os manterá macios.

A água do chuveiro cai incessantemente entorpecendo outros sons e a realidade para além do espaço onde estou.

Os olhos abrem-se para encontrar a escuridão instalada.

O banho termina, enrolo a toalha nos cabelos e deixo que o meu corpo se enxugue naturalmente.

O espelho reflecte-me. Ou apenas reflecte os que os meus olhos vêm?

Deixo que a camisa de noite, branca, deslize sobre o corpo, segura pelas alças finas.

Descalça, subo ao quarto onde a cama aberta deixa ver os lençóis alvos que me estimulam os sentidos.

A luz da noite encaminha-me para a varanda, pela qual posso apreciar a luzes pequeninas de cada casa lá fora. As empanadas verdes ficam abertas pela noite dentro.

Deito-me na cama larga, abraço a almofada vazia e adormeço.

…

Acordo.

A noite ainda é longa.

Levanto-me e no silêncio do meu tempo dispo a camisa que me sossegava o corpo e guardo-a com delicadeza na cómoda vazia.

Lá fora já não há carros, nem os cães ladram, sequer ouço os pássaros. As luzes, essas, continuam acesas como faróis num qualquer oceano desconhecido.

Na varanda as empanadas verdes são fechadas, a porta atrás de mim encerra-se.

O quarto fica vazio à espera das minhas saudades.

Desço à sala, ligo a televisão, a publicidade da madrugada invade o ecran enquanto visto o roupão que havia ficado no sofá, pego no último livro e aguardo que a noite acabe.


Segunda-feira, 10 de Outubro de 2005

Inocência perdida.

Jeans azuis, top florido de decote profundo, soutien e cuecas de renda branca e recortada.

O banho quente havia deixado a pele pronta e sensível, o creme, levemente perfumado, hidratava a pele morena, deixando-a suave e sensível.

O espelho revelava uma mulher jovem, expectante, os olhos escuros cheios de brilho antecipando a partilha de um olhar há muito esperado.

Um sorriso rasgava as faces coradas, num nervoso escondido e miudinho.

As sandálias de salto alto dando-lhe a segurança de um equilíbrio estudado para o corpo pequeno.

Os cabelos de um castanho reflector de mil tons caíam suaves e soltos pelos ombros, acariciando meigamente o meio das costas.

As últimas gotas de perfume condensam-se na pele quente, escondendo-se silenciosas nos recantos mais íntimos de um corpo feminino.

Um respirar profundo exorta a coragem que não possui, e afasta os medos que a cerceiam.

…

Estacionada aguarda o carro escuro que a guiará ao destino que desconhece e deseja mais do que à vida.

O espelho retrovisor mostra a frente de um carro, no qual se desenha o perfil do homem que vai encontrar. Pára ao seu lado, o vidro desliza e ele sorri-lhe. O silêncio fá-lo inclinar a cabeça num convite proibido e logo aceite.

Arrancam, um atrás do outro, a mulher seguindo o homem. Ele conhece bem o caminho. Ela não sabe nada.

…

Entram no prédio discreto, ela reconhece cada pedaço, sem nunca ali ter estado, tantas foram as descrições que ele lhe fez, numa tentativa até aquele momento gorada de a fazer chegar até ele.

O apartamento fica no rés-do-chão permitindo um acesso rápido e fácil. Em nenhum momento aquele homem e aquela mulher poderiam ser ligados um ao outro, ninguém diria que aqueles dois seres se conheciam, e que entre eles havia um fio finamente tecido, feito de sonhos, fantasias, curiosidade e tesão. E amor.

Talvez alguém que passasse naquele instante pudesse olhar os olhos dela e ver o quanto aquela mulher amava o homem que seguia na sua frente.

A entrada é escura.

…

Lá dentro os olhos habituam-se ao escuro, vislumbram formas de móveis, percebem divisões que ela não conhece.

Ele, senhor do seu território, movimenta-se rapidamente, e desaparece no fim do corredor cinzento.

Sozinha, olha à sua volta, entra num sala vazia, o saco escorrega-lhe pelo ombro.

Ele está atrás de si.

…

Sente-o mais do que a si própria, quase como alguém que observa à distância uma história que não é a sua.

Volta-se e encara o homem alto à sua frente.

…

Ele está nú.

Não, não era assim que tudo deveria começar.

Ela não quer ouvir, não quer desistir, não pára para pensar, sacode a cabeça.

As vozes desaparecem.

Ele está ali.

À sua espera.

…

O medo de falhar fá-la forte, encorajando-a e guiando-lhe os passos de um caminho que hoje vai descobrir.

Os corpos tocam-se, as bocas beijam-se, as mãos apalpam e tocam numa excitação crescente.

As mãos dele são rápidas, os gestos também.

Ela, num assomo de uma lucidez perdida, ainda lhe sussurra “…estou aqui porque te amo…”. Não parece que ele a tenha ouvido. As palavras depois de soltas perderam a importância que continham. Até para ela.

…

Levanta-se e entra no WC, nem olha o espelho, apenas deixa a água fria escorrer-lhe pelo corpo inundado de odores.

Ele, que a seguiu, vem dizer-lhe que só há uma toalha que terão de partilhar.

Rápido, numa naturalidade feita de experiência, não percebe que aquela mulher apenas queria que ele a abraçasse.

Os pingos de água deixam pegadas atrás de si enquanto se deita de costas viradas para o espelho do roupeiro, o rosto na parede, os olhos tão abertos que doem.

O corpo dele cobre-a e recomeçam um caminho recente e ainda insatisfeito.

…

Mais tarde, ainda deitada e preenchida, observa a coberta miserável que cobre a cama onde repousa. A mão percorre os desenhos quase irreconhecíveis outrora revelados no tecido gasto.

O homem, percebendo-lhe os movimentos, vira-a para si e sorrindo diz “… bem vinda ao Estádio de Wembley…” enquanto solta uma gargalhada vibrante.

O sorriso que a mulher segura na face triste quase se apaga, sem esforço solta-se do corpo que a segura, junta a roupa dispersa e diz baixinho “…tenho de me ir embora.” ouvindo-o dizer enquanto se veste “…eu também, ainda vou a Vigo ao bingo, o A. está à minha espera…”.

Num esforço desumano ainda capaz de mimar o homem que a observa chega-lhe as chaves do carro.

…

Agora na frente, aquela mulher conduz de regresso ao parque de estacionamento onde horas antes esperara pelo seu amante.

Os trinta anos de vida pesam-lhe e percebe num relance que acabou de perder a inocência que acreditava ter perdido muitos anos antes, compreendendo agora que essa ingenuidade fora paga a um preço demasiado elevado.

No espelho vê reflectir o sinal de luzes que ele faz ao despedir-se enquanto a ultrapassa.

Acena-lhe sorrindo, o peito ofegante, a garganta oprimida, os olhos tristes e escuros.

…

O telefone toca o número dele aparece no visor.

- Amo-te linda!!!

O telefone desliga-se.

…

Na mulher serena que desce as escadas rolantes, no shopping, em direcção à amiga cúmplice que a aguarda, apenas se nota o brilho febril do olhar.

À sua volta tudo se mantém igual.

Ela não é a mesma.






Quinta-feira, 29 de Setembro de 2005

Espaço vazio.

will_the_night.jpg
autor: Armindo Dias


Preciso adormecer.



A cabeça pousa solitária.

Pensamentos, decisões, perguntas, medos, respostas.

Que fazer…?

Será que…?

Terei feito bem?

Não deveria ter falado assim….

…

“Preciso de….”

“Onde está…?”

“É aqui que assino…?”

“Isto fica bem aqui?”

“Levas isto…”

…

Frases soltas.

Atitudes constantes.

Suspiro.

Dou respostas.

Ninguém me ouve.

…

Logo será igual.

Amanhã também.

Depois…



Estou tão cansada.


Terça-feira, 20 de Setembro de 2005

Resistir (sem data de regresso).



No silêncio das palavras escritas existem segredos, encontros e desencontros.

Acredito, que, em muito do que escrevemos existem gritos de socorro, desabafos, declarações de amor, descrições de momentos felizes.

Sei que poucas vezes conseguimos fazer passar a nossa verdadeira história, que não tem de ser necessariamente a nossa, mas aquela que queremos contar.

Nessas tentativas, tantas vezes infrutíferas, temos a felicidade de encontrar outras palavras, outros momentos e outras pessoas, que não sendo iguais a nós, souberam em determinado momento tocar-nos no nosso mais intimo “eu”.

E no desconhecimento virtual deste novo mundo partimos à descoberta dos outros, das suas palavras, das histórias que contam.

Histórias que nos encantam, que nos fazem chorar, outras em que rimos, outras ainda que nos fazem pensar, e existem as histórias de amor. Não as que lemos, ou até que escrevemos, mas as que criamos e vivemos enquanto personagens, mais ou menos reais, deste mundo feito de e nas histórias.

As emoções que vivemos nesta troca de palavras, frases, pensamentos fazem-nos sentir mais a vida, muitas vezes como refúgio de outra que não nos deixa ser quem somos, ou até quem quereríamos ser.

Já me apaixonei por textos, pelos seus autores, homens e mulheres sábios, constantemente à procura de vidas novas (as deles, e as que criam para nós) e que, soberbamente, assumimos como nossas, deixando-as entrar na nossa mente, corpo e espírito, assumindo assim um novo mundo, novas histórias, que já não são só deles, e muitos menos apenas nossas.

Nesta partilha ocorrem momentos inesquecíveis, de ligações extremas e inexplicáveis, seja pela leitura que outros fazem de nós e dos nossos escritos, seja pelo comentário que fica e que nos “obriga” a responder, numa tarefa quase compulsiva e sempre muito pessoal.

Enquanto escrevo estas palavras lembro-me daquele homem, que provavelmente lerá estas palavras, que num determinado dia entrou por mim adentro e me deixou abananada pelo muito que leu de mim, e recordo, sempre, o contacto directo, ainda que virtual, que estabelecemos e que nos fez conhecer um pouco mais de cada um.

Foram momentos de partilha intensa, numa descoberta quase infantil de temas, sonhos e (des)gostos comuns, a uma velocidade tão grande como o sonho de um novo amor. Depois foi o pousar os pés na terra e perceber que o nosso mundo, o dos adultos, é muito pouco sonhador, e nada solidário com homens e mulheres frustrados, encaminhados, e sempre responsáveis.

E nesse regresso à terra perdemos um pouco de nós, da ingenuidade e do sonho que ainda sobrevive no nosso peito e na nossa alma. E o “Adeus” sempre difícil e dolorido torna-se premente, senão em palavras (porque a coragem não é tanta assim), em atitudes desafiantes de um silêncio ensurdecedor.

Será que vale mesmo a pena lutar por um novo prazer encontrado na escrita, que mais do que um desafio é já uma necessidade?

Não tenho resposta.

Nem sei se algum dia terei, espero, no entanto, não desistir sem lutar.






Sexta-feira, 16 de Setembro de 2005

Li algures...

Falar do amor.

Absurdo.

Impossível.

Olhos escorrem.

Soluços sufocados.

O queixo treme.

Passos.

Correm.

A cabeça ergue-se.

Ninguém.

O silêncio.

Lento.

Instalado.

Na sombra.

Um coração.

Parado.

Tenso.

Afogado.

Lábios.

Cerrados.

A mão.

Sem pena.

Apenas.










Terça-feira, 13 de Setembro de 2005

A olhar a minha rua.

Daqui, onde estou, consigo ver o mundo.

Não o mundo todo! Isso não!!! Seria até ridículo acreditar que sim.

Vejo apenas o meu mundo.
A minha rua.
Observo os que me rodeiam e usufruo do que me mostram.



Sob o sol abrasador que me queima a tez, e num franzir de olhos, avisto lá ao fundo rua, no quebrar da curva, os meninos e meninas a patinhar na água da fonte, aproveitando avidamente os últimos dias de férias. Quase consigo ouvir as suas gargalhadas sãs, em risadas, soltas e frescas, de uma infância que corre ferozmente.

Subitamente atraída pelo lençol branco estendido no varal no quintal da vizinha reparo na menina, quase mulher, sentada feliz, no pátio do anexo onde vive como princesa única de seus pais.

Está a dias de entrar na faculdade, sem nunca ter chumbado “…e sem disciplinas deixadas para trás ou repetidas…” como apregoa, orgulhosa, a sua mãe, num alegria incontrolável que exprime a cada pessoa com quem se cruza. Sinto um nervoso solidário, com aquela menina perfeita, sabe o muito que esperam dela, numa exigência que compreende e assume, mas que, ainda, não sabe ser capaz de cumprir.



Um ruído castigador irrompe por este início de tarde sossegado. O rapazote do lado, nos seus espigados dez anitos acelera a sua motorizada miniatura, e com motor de moto-serra (digo eu), prenda da mãe, no último aniversário. O prazer que emana do seu rostinho faz lembrar o pai falecido há um ano, e um apaixonado pela duas rodas.

Daqui a pouco a avó lamentar-se-á, no portão, dizendo vezes sem conta que o pequenino lhe acaba com o descanso.



Do meu lado da rua, a Srª. M. sentada na sombra da sua varanda acena-me cúmplice e reservada. Retribuo o cumprimento, enquanto, mais uma vez, me delicio aspirando os odores do seu quintal. Ali existe uma profusão de cores, cheiros e movimentos que me inebria a alma e os sentidos. Num dia são os kiwis, noutro é o loureiro, noutro ainda são as ameixas, e mais tarde no ano, o tempo ajudando, serão os diospiros. Dádiva duma natureza generosa que adora partilhar.



Pouso a cabeça quente, e no início da rua as videiras cheias de uvas, cansadas à espera da vindima do próximo Sábado, exalam um cheiro embriagante a fruta doce e madura.



Ali, mesmo ao lado, anda o C. a bulir, homem já entrado nos “entas”, quase careca, que a vida bem cedo deixou dependente, não sabendo muito bem quem é, o que faz e quem o rodeia. Costumo dizer que”… vai ser menino da Comunhão para sempre…” pois foi nesse dia que a sua alma desistiu de crescer.

A sua mãe, viúva amarga, num vestir negro constante, parada junto ao tanque de rega vigia-o e a quem passa também.



Aqui, mesmo ao lado, é a casa do M. e da R., casados, já lá vão vinte cinco anos, sem filhos, primeiro porque não quiseram, depois porque não puderam. Têm uma cadela, a “Jolie”, que lhes assegura, de forma segura e eficaz, a propriedade e seus bens, pois ninguém se atreve a parar para admirar a nomeada beleza desta “Doberman” negra e feroz.

Tirando o Sr. D., pai do M. e sogro da R., que enfrenta a cachorra, dando-lhe umas “muletadas” enquanto abre o portão.

- Olá rapariga! – Cumprimenta-me, amparado pelas muletas na sua velhice já longa.

Lembro-me dele, como de mim, desde que me sinto como gente. O conforto que isso me proporciona é tão grande como o prazer que tenho quando ao Sábado à tarde visito a sua casa, e encontro a Srª. O., sua esposa, de rolos na cabeça e rede cor-de-rosa a segurar os cabelos já finos e fracos, num gesto que recordo desde menina de colo.

- Olá Sr. D., não deveria estar a descansar? – Pergunto para arreliar, sei que nem me vai responder, enquanto se dirige ao galinheiro, onde durante a tarde conversará com aquelas que alimenta todos os dias e que sem ele não existiriam, na voragem dos dias que correm céleres.



Atrás de mim, enquanto acelero o carro, os portões fecham-se e a minha rua fica para trás.








.estou por aí... entre a realidade e os sonhos....

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